Quando falamos de concorrência em logística, é comum esquecer que a disputa também ocorre entre infraestruturas e rotas. A mais recente aposta chinesa mostra como a diversificação dos caminhos do comércio mundial pode ampliar a eficiência, mas também gerar novos riscos. Em agosto, o porta-contêineres Dubai Tower deixou Ningbo para inaugurar um serviço regular entre a Ásia e a Europa pelo Oceano Ártico. A chamada Rota Marítima do Norte (NSR) atravessa o Estreito de Bering e o norte da Rússia. A viagem até o Reino Unido pode levar cerca de 20 dias — aproximadamente metade do tempo da rota tradicional pelo Canal de Suez. Sob a ótica concorrencial, há um ganho potencial claro. Uma rota alternativa pode reduzir a dependência de gargalos estratégicos, como Suez, Ormuz e Malaca, e aumentar a capacidade de reação das cadeias globais diante de guerras, bloqueios ou crises geopolíticas. Japão e Coreia do Sul também demonstram interesse no corredor ártico, sinal de que a disputa não será exclusivamente chinesa. Há ainda ganhos potenciais de eficiência. Uma viagem mais curta pode reduzir o consumo de combustível (responsável por cerca de 70% do custo do transporte marítimo) e diminuir emissões. O clima frio também favorece mercadorias sensíveis à temperatura, como baterias e componentes de veículos elétricos. Contudo, a nova concorrência entre rotas tem custos. A NSR ainda é sazonal, depende de navios especiais e, em alguns casos, de quebra-gelos russos. Os seguros são mais caros e a infraestrutura de resgate e reparação é limitada. Essas despesas podem corroer a vantagem econômica prometida. Há também riscos ambientais e geopolíticos. Por enquanto, não se trata de substituir Suez. Em 2025, apenas 3,2 milhões de toneladas passaram pela NSR, contra aproximadamente 464 milhões pelo Canal de Suez. Ou seja: menos de 1% do volume total registrado em Suez no mesmo período. Mas a experiência demonstra que a concorrência não exige substituição imediata. A simples existência de uma alternativa pode alterar estratégias, investimentos e poder de barganha. A questão mais interessante, agora, talvez seja outra: quando a China estiver plenamente capacitada para operar essa nova rota, seus concorrentes ainda terão condições de entrar? A disputa pelo Ártico mostra que a concorrência do futuro não será apenas por mercados, mas também pelo controle dos caminhos que levam até eles. A China parece já ter percebido isso. A pergunta é se os demais países chegarão a tempo. *Juliana Oliveira Domingues. Professora doutora de Direito Econômico e Regulação Econômica da FDRP/USP e diretora de Infraestrutura e Logística da Fiesp