(FreePik) Em qualquer período da história, fazer jornalismo tem muito de missão, uma espécie de sacerdócio movido pela convicção de que informação livre e confiável tem o poder de transformar positivamente a sociedade, ou ao menos desacelerar os processos de degradação civilizatória. Na América Latina, desde sempre foi preciso muita perseverança, e até pitadas de heroísmo, para enfrentar ameaças e intimidações. Contudo, agora, apenas a teimosia, traduzida pela resiliência neste sacerdócio, se mostra capaz de resistir à onda devastadora das mudanças de algoritmos e à apropriação desautorizada de conteúdos jornalísticos tão arduamente produzidos e que são usados para alimentar os modelos de inteligência artificial sem quase nenhum reconhecimento. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Todos defendem a liberdade de imprensa, mas ela precisa, além de liberdade, de uma imprensa robusta e economicamente saudável. O aniquilamento gradual do ecossistema jornalístico interessa a regimes autoritários, governos corruptos e todos que enxergam na imprensa profissional uma inimiga a ser destroçada. Mas não deveria interessar às big techs e modelos de IA. Informação verificada, equilibrada e plural é um bem cada vez mais escasso neste mundo atordoado pelas manipulações e deep fakes. Deveria, portanto, ser tratada como um bem precioso pelas bilionárias plataformas de IA, que pagam fortunas por talentos, softwares, chips, energia e datacenters, mas se recusam a remunerar devidamente os fornecedores do insumo mais relevante: a informação confiável produzida pelas redações. Sem jornalismo profissional, uma vasta camada de dados das plataformas de IA será um imenso lodaçal, no qual alucinações e aberrações desinformativas vão imperar. Quem quiser ter uma ideia de como seria esse novo universo deve recordar o que ocorreu em Ceuta em julho. Mais de 70 mil marroquinos, a maioria jovens, se lançaram ao mar por acreditaram em uma desinfor-mação propagada pelas redes sociais, de que bastaria chegar pelo mar a Ceuta para ter a Europa sob seus pés. Segundo pesquisa do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, 52% dos jovens entre 18 e 24 anos se informam prioritariamente pelas redes. O resultado disso? Uma massa enganada e mais de 80 corpos retirados do mar. Ainda Estou Aqui, que conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional, narrou a resistência moral, ética e emocional de uma família na ditadura militar, após o desaparecimento do pai, um deputado federal de tendência moderada, mas ainda assim encarado como inimigo a ser eliminado. O jornalismo na América Latina vive situação parecida. Sofre com violência, perseguições e injustiças e agora com a ameaça existencial de destruição pela IA. Mas ainda estamos aqui. E como apregoa uma tradição brasileira inspirada na resistência dos indígenas: enquanto houver bambu, haverá flecha. Marcelo Rech. Jornalista e presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ).