(Imagem gerada por IA) Recebi de um amigo a imagem de uma mulher sozinha à noite, sentada na areia, diante do mar. Segundo ele, a cena poderia inspirar uma crônica. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Porém, antes de me jogar nessa tarefa, compartilhei a foto com amigos. As respostas foram bastante reveladoras. Apesar do isolamento noturno, não houve manifestação sobre o gênero da pessoa ou sensação de insegurança. “Eu” foi uma resposta poderosa, indicando identificação imediata. Quando a fotografia permite projeção, ela deixa de ser documento e vira experiência. “Paz” foi a palavra mais repetida. Isso sugere que o vazio do espaço foi interpretado como alívio, não abandono. A ausência de pessoas não gerou ameaça — gerou descanso. “Solidão” e “tristeza”. A mesma cena ativando leituras opostas: para alguns, isolamento, para outros, escolha. Isso revela algo menos sobre a foto e mais sobre quem olha. A imagem funciona como tela de projeção emocional. O polo positivo predomina. Mesmo a solidão, quando aparece, não vem acompanhada de medo, desamparo ou angústia explícita. Ela sugere: pausa, interioridade, espaço, autonomia. O mar invisível reforça o mistério. A noite amplia o recolhimento. A cadeira isolada cria foco narrativo. Curiosamente, quase ninguém mencionou o cenário físico num segundo plano (rede de vôlei, iluminação artificial, cidade). Todos foram direto para o estado emocional. Isso é forte. No entanto, uma das respostas, me causou surpresa, e só poderia ter vindo de um amigo poeta: silêncio ou silencio. O jogo de palavras nos remete ao silêncio contemplativo, portanto espontâneo, que leva à liberdade. O silencio, sem acento, é verbo na primeira pessoa — ato de silenciar-se. É o silêncio do oprimido, imposto. Assim como “solitude”, palavra que não carrega solidão, mas escolha. Talvez, como diria a grande filósofa minha mãe dona Ritinha, a pessoa sentada ali só quisesse tomar uma fresquinha. Marcio Aurelio Soares. Médico.