Quem passa hoje pela Vila Belmiro talvez não imagine quantas transformações aquele espaço de Santos já testemunhou. A inauguração aconteceu em 12 de outubro de 1916 e, dez dias depois, o Santos conquistou a primeira vitória em seu novo campo, por 2 a 1, sobre o Ypiranga. Em 1933, o campo recebeu oficialmente o nome de Estádio Urbano Caldeira, em homenagem a um dos personagens fundamentais dos primeiros tempos do clube. E há outra palavra que se tornou inseparável da Vila: Alçapão. Em 1930, o jornalista Antonio Guenaga, de A Tribuna, encontrou uma maneira de traduzir em uma única palavra a dificuldade que os adversários enfrentavam no estádio. O Santos vinha de uma sequência de 25 jogos sem derrota em casa, e o apelido ganhou espaço. Décadas depois, a marchinha Leão do Mar, composta por Maugeri Neto e Maugeri Sobrinho para celebrar a conquista paulista de 1955, ajudaria a levar o Alçapão da Vila para além das arquibancadas. E existe um nome que é impossível separar da história do estádio: Pelé. O Rei foi o maior goleador da Vila Belmiro e deixou ali uma coleção de momentos que ainda hoje fazem parte das conversas dos torcedores. Um deles aconteceu em 21 de novembro de 1964. Naquela tarde, o Santos enfrentou o Botafogo de Ribeirão Preto e venceu por 11 a 0. Pelé marcou oito vezes. Feitiço e Pepe também ocupam lugar de destaque entre os grandes goleadores do estádio. Mas a história da Vila não pode ser contada apenas pelos seus maiores ídolos. Ela também pertence aos jogadores que vestiram a camisa em diferentes épocas. Conheci a Vila ao lado do meu pai e, como tantos outros torcedores, tive a oportunidade de transformar aquela experiência em uma lembrança que pode ser passada adiante para a próxima geração. Quem conheceu o estádio pelas histórias dos avós talvez tenha feito questão de apresentar o mesmo lugar às novas gerações. Essa memória pode ser visitada no Memorial das Conquistas. Por ali já passaram milhares de pessoas, entre santistas, famílias, estudantes e visitantes interessados em conhecer a trajetória do clube. Troféus, fotografias, camisas e objetos ajudam a aproximar o visitante de épocas que, para muitos, fazem parte das lembranças de infância ou das histórias ouvidas dentro de casa. Mas a Vila Belmiro também é futuro e vive um hoje um processo de retrofit. Depois de 110 anos, é difícil separar a Vila da história do Santos. O estádio acompanhou mudanças no futebol, na cidade e no modo de torcer. É justamente por continuar fazendo parte da vida da cidade, do clube e de seus torcedores que, aos 110 anos, a Vila Belmiro não parece apenas um estádio antigo. Parece uma história que ainda está sendo contada. *Presidente do Santos Futebol Clube