(Vanessa Rodrigues/AT) Quando eu era criança, antes de juntar as primeiras sílabas no papel, meus pais — grandes entusiastas da leitura — já me colocavam em contato com o mundo mágico dos livros. Uma parte essencial desse processo de iniciação literária eram as saudosas revistinhas em quadrinhos, especialmente aquelas estreladas pelos personagens da Disney, publicadas pela icônica Editora Abril. Eu não lia, claro — ainda era “pré-leitor”. Mas bastava abrir uma página para mergulhar nas histórias, decifrando expressões, gestos e ações com a destreza de um decifrador mirim de figurinhas. E acredite: muitas vezes eu acertava o enredo. Avançamos algumas décadas e hoje, enquanto dirijo pelas ruas de Santos, fico me perguntando se parte da população perdeu essa habilidade de interpretar imagens. Digo isso porque, embora nossa cidade tenha uma sinalização razoável — ok, não chega a ser Zurique, talvez nem Curitiba, mas os sinais estão lá —, há algo de profundamente enigmático no comportamento de muitos motoristas. Vamos aos fatos: a maioria esmagadora dessas pessoas passou por uma autoescola, fez prova teórica, decorou placas e sinais. Presume-se que saibam ler. Mas será que sabem ver? Ou melhor: será que lembram como é que se interpreta uma figurinha? Experimente, por exemplo, dar uma voltinha ao redor da Praça Independência seguindo as faixas pintadas no chão. Missão impossível, nível Tom Cruise. Motoristas mudam de faixa como quem troca de canal da TV, sem dar seta, sem aviso, sem culpa. Aliás, parece que muita gente desconhece aquela discreta alavanca ao lado do volante — a que liga a famosa “luzinha” conhecida como seta. Sim, ela existe! Placas, faixas, semáforos, setas: tudo ali, desenhadinho, colorido, num verdadeiro gibi do trânsito. Mas parece que muitos motoristas não passam da capa. Acho que o problema não é a pressa ou a falta de paciência, mas uma amnésia seletiva que ataca a parte do cérebro responsável por interpretar sinais. Quem sabe um dia a gente volte a folhear com mais atenção as figurinhas que estão nas ruas da cidade, e descubra que, assim como nos velhos gibis, cada placa tem sua fala, e cada seta é um balão de pensamento avisando o que vem a seguir. Enquanto isso não acontece, seguimos por aí, adivinhando intenções e torcendo para que, no próximo cruzamento, alguém se lembre de acionar o “pisca” — esse humilde balãozinho luminoso que conta qual é o próximo quadrinho da história. *Engenheiro, ex-executivo e consultor