O valor total disponibilizado para este certame é de R\$ 700 mil (FreePik) A imprensa pode muito numa sociedade vibrante. Assim, no começo dos anos 60, nossa Patrícia Galvão, a eterna Pagu, ao lado do editor-chefe deste jornal histórico, Geraldo Ferraz, promoveu férrea campanha para a construção de um teatro público para Santos. Patrícia não sobreviveu para ver seu sonho realizado no arrojado complexo projetado pelos arquitetos Abrahão Sanovicz, Julio Katinsky e Oswaldo Corrêa Gonçalves. O então prefeito desenvolvimentista Silvio Fernandes Lopes realizou o sonho de artistas sob a égide da visionária escritora. Silvio, ele mesmo, cercado da melhor elite intelectual santense, a começar pela poeta e dramaturga Itacy de Souza Telles, sua sogra e autora que bem merece ser revisitada através de suas páginas de raro talento lírico. Sempre relendo os livros da querida mestra Lucia Teixeira, que trouxeram à luz o legado da musa modernista, creio que este mesmo espírito é hoje pertinente para a amada São Vicente. No momento em que a Cellula Mater se prepara para meio milênio de civilização brasileira, é inconcebível que o berço de nossa cultura não tenha um teatro para chamar de seu. Não falo de uma simples casa de espetáculos, e sim um equipamento que congregue todas expressões artísticas que só o teatro, solo sagrado, sabe catalisar. Minha gente! Foi em São Vicente que o teatro nacional nasceu pelo gênio e engenho do padre Anchieta! Sim, o poeta e dramaturgo que percorreu o litoral de Pindorama e fundou São Paulo, encenando peças que eram pura pedagogia de aculturamento de mão dupla dos saberes indígenas e ibéricos, forjando em semente o que seria a nação. Cliquem nos celulares que podem ser a enciclopédia redentora à sua mão e conheçam duas dessas obras-primas: Auto da Pregação Universal e Auto da Festa do Natal. Foi São Vicente o palco aberto onde o gênio de Tenerife criou nossa primeira gramática tupi e o primeiro presépio, marca da cristantade nas Américas. Como nossa cidade-irmã não conta com um teatro? A encenação da fundação por Martin Afonso não é substitutivo sazonal dum teatro de uso incessante, ao contrário! Uma cidade com tanta carência de políticas públicas permanentes não pode prescindir de um teatro simbolicamente centralizado. O teatro é a nave-mãe de todas as artes. O teatro integra, é um fator raro de socialização e aprendizagem lúdico e crítico para qualquer comunidade. Cabe às forças pensantes vicentinas e mesmo da Baixada Santista que lutam pela metropolização cultural suscitar a demanda que pede concretização. A terra de Ivani Ribeiro bem tem histórico de vida em cena, só falta um espaço também vívido de encantamento que o acalante. E desde já seu nome só pode ser Teatro Anchieta! Que no seu quinto centenário São Vicente celebre em seu palco. Se o conhecimento liberta, o teatro salva desde os tempos do jesuíta. *Escritor, membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande e curador da Casa das Culturas de Santos