(FreePik) Dois prá lá, dois prá cá. Rostos e corpos colados. Murmúrios românticos nos ouvidos embevecidos das damas. A sensualidade no ar. Um sabor de pecado. A sedução buscando um romance. Era o bolero. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Esse ritmo musical nasceu em Cuba. Mas foi no México que ele se firmou. E se espraiou pelo mundo. Na ilha de Fidel Castro, os negros formavam a maioria de compositores e cantores. No México, eram todos brancos. O machismo predominava. Era um mundo dos homens. A mexicana Consuelo Velasquez rompeu essa hedionda tradição. Ela compôs Besame Mucho, um dos boleros mais famosos. Outra mexicana, Elvira Rios, no início da década de 1940, levou a honra de grande estrela de seu país identificada com o bolero. Agustin Lara foi o primeiro bolerista mexicano a conquistar fama internacional. Pedro Vargas tornou-se pioneiro no Brasil, a começar pelos cassinos cariocas. O bolero se expandiu por todo o país. E veio aportar em Santos e São Vicente. Todas as orquestras que se exibiam à beira-mar sempre traziam um crooner exímio cantador do ritmo romântico. No caso de Santos ficaram na história os bailes de formatura da Faculdade de Direito, nos salões mágicos do Parque Balneário. Nessa noite marcante o bolero rivalizava com o samba. Só abria um espaço especial para algumas valsas, que o formando dançava com a mãe e a namorada ou esposa. O maior cantor de boleros não era cubano, nem mexicano. Era espanhol. Gregório Barrios foi considerado o rei desse estilo musical. Cruzou o Atlântico para ser criado em Buenos Aires, desde a infância. Nossa ilha de São Vicente teve o privilégio de aplaudir, com entusiasmo, sua primeira temporada brasileira. No cassino da Ilha Porchat. O cantante espanhol jamais perdeu o trono. Nem mesmo quando o chileno Lucho Gatica, de voz aveludada, pisou na ribalta. O novo concorrente era apaixonado por La Barca. Viveu 30 anos no México e construiu uma gigantesca mansão em forma de barca. Como símbolo da canção mais interpretada por ele. O país escolhido para ser o predileto no coração de Barrios foi o Brasil. Ele andava pelo mundo divulgando sua arte. Mas sempre voltava para cá. Em 1962 radicou-se em Copacabana. Quatro anos depois, casou com Carmen Erhardt, ex-miss Santa Catarina. Trinta anos mais jovem. Chegou a dar a um filho o nome de Getúlio, homenagem ao presidente Getúlio Vargas. Com o passar do tempo, o bolero foi sendo pouco a pouco esquecido. Substituído por outros ritmos, o maior deles o rock. Mas deixou o legado de músicas inesquecíveis. Entre elas, Besame Mucho, Sabra Dios, Quizás Quizás Quizás, Sabor a Mi, La Barca, Tu me Acostumbraste, Contigo en la Distância, Solamente Una Vez. Nesse legado também ficaram para sempre as marcas registradas do bolero: sensualidade, pecado, traição, tragédia, ingratidão, desespero, desvario, loucura e lágrimas. Ao som das quais milhares de brasileiros dançaram. Dois prá lá, dois prá cá. *Carlos Conde. Jornalista