(Gerado por IA) Pouco nos estarrece em tempos de abismo intelectual, terraplanismo e criminosas fake news. Uma notícia chega ao apagar das luzes de 2024 que realmente é de amargar e explica o estado de “desarranjo cognitivo” crescente. Uma séria pesquisa conduzida pelo Ipec com Fundação Itaú e divulgada pelo Instituto Pró-Livro revela que nos tornamos uma nação de maioria de não leitores: 53% afirmaram não ter lido nenhum livro nos três meses que antecederam o estudo realizado entre abril e julho. Nos últimos cinco anos, o Brasil perdeu cerca de 7 milhões de leitores, totalizando 11 milhões de abstêmios intelectuais a mais desde 2015. Detalhe: em todas camadas socioeconômicas. Outro agravante: o ambiente escolar também não tem sido acolhedor à leitura. É desolador, pois os pais estão substituindo livros por celulares alienantes, instaurando o círculo vicioso para ausência de massa crítica, indigência cultural, pauperização vocabular, déficit linguístico e consequente analfabetismo funcional, que chega às raias de 35% da população! Soluções? Mobilização nacional num esforço de guerra pela vacinação contra a ignorância. Bibliotecas vivas com acesso internético aliado da leitura e pesquisa, integração das escolas e universidades a programas de leitura maciços e associação dos programas Bolsa Família à alfabetização profunda de adolescentes e adultos. A educação formal, leia-se diploma superior, tornou-se dissociada da leitura. Especialistas do Direito, da Medicina, dos cursos voltados para o mercado não leem nada fora da caixinha monetizante. Professores primários e ginasiais, por desinteresse ou carga horária excessiva, não leem. Jornalistas, que eram sinônimos de intelectuais, estão confundindo informação com saber. Estamos sufocados de informação num vazio gritante de sabedoria. Recorro ao poeta T. S. Eliot: “onde está o conhecimento que perdemos na informação? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?” Pensem nessa tríade: informação, conhecimento e sabedoria. Não será com curtidas e memes que salvaremos o planeta. E para salvar o que nos resta de civilização, mais Edgar Morin menos Elon Musk. Li emocionado (sim, inteligência me emociona!) um artigo obrigatório de um dos nossos maiores mestres em Educação, Cláudio de Moura Castro: “O bom profissional pode ser inculto?” Nele, citando outro acadêmico, pontifica: “Quem não raciocina é um fanático, quem não sabe raciocinar é um imbecil e quem não ousa raciocinar é um escravo”. Acrescentando: “A educação é a bússola para a viagem da vida”. Nessa trajetória, estamos sendo guiados pelo mercado ou pela lorota neoliberal, pondo em risco a espécie como seres humanamente pensantes. Sem tautologia, sim, porque pensante era atributo de humano que perigosamente pode deixar de ser. Abdicando da leitura, estamos no caminho de abdicar de nós mesmos, seres de linguagem e sensibilização. Quem sabe ler e não lê vive como quem só surfa na superfície de um mar raso, sem sondar a abissal maravilha de suas riquezas profundas. Sondem a existência em seu encanto, não fiquem no “rasinho” do triste espetáculo de nulas platitudes. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande e Curador da Casa das Culturas de Santos