(Vanessa Rodrigues/AT) No canto da sala, um menino quieto. Estava afastado das outras crianças que brincavam animadas. Era Leonardo, garoto tímido, que parecia não pertencer àquele ambiente. Felipe e Estela estavam no orfanato para adotar uma criança. Simpatizaram com Leonardo e pretenderam conhecê-lo melhor. Dias depois o rapaz retornou ao orfanato. Encontrou Leonardo sentado no chão, distraído, fazendo desenhos. Aproximou-se e passou a observar o menino, que se distraia com seus lápis e papéis. Sentou ao lado do garoto e puxou conversa. Leonardo respondia com acenos de cabeça, sempre concentrado nos seus desenhos. Num instinto paternal, talvez, Felipe acariciou os cabelos do pequeno, não acostumado a mimos principalmente vindos de alguém ainda estranho para ele. O menino se mostrou arredio. Depois, foi se soltando. Acontecia algo diferente naquele momento, uma experiência rara para os dois. Leonardo parou de desenhar. Instantes depois segurou a mão de Felipe e, logo em seguida, encostou a cabeça no seu braço, como a pedir proteção e carinho. Quem passasse por ali poderia perceber o brilho das trocas de olhares e o surgimento de tênue afeição, já correspondida. E os dois experimentaram aquele bom momento. O silêncio dizia tudo. Um sentimento formidável os ia envolvendo. Felipe passou o braço pelo ombro de Leonardo e isso fez um bem enorme a ambos. O interesse de Felipe por Leonardo e essa interação carinhosa exercitada pelos dois foram o passe de mágica para a simbiose que poderia concretizar a tão esperada adoção. Alguns dias depois, foi a vez de Estela ir ao orfanato. O procedimento e a interação foram semelhantes ao experimentado na visita de Felipe. Ela voltou para casa feliz, ansiosa, emocionada e muito esperançosa por definir logo aquela situação. O casal voltou outras vezes ao orfanato. Chegou o dia tão aguardado. Leonardo ficou sabendo da adoção e esperou ansioso pela hora da chegada dos seus novos pais. Quando os viu, sorriu e correu para abraçá-los. Estela beijou o menino no rosto. Felipe abaixou-se e pediu um abraço. O menino enlaçou o pescoço do rapaz, com força. Felipe ergueu Leonardo, que ganhou o colo seguro do futuro papai. Estela envolveu os dois, compartilhando também daquele instante de felicidade. O procedimento da adoção possibilitou a Leonardo obter o seu lar esperado, saudável e repleto de afeto, propício a uma digna existência. Num tempo em que tanta gente prefere apenas adotar animais de estimação, tratando-os como seres humanos, crianças como Leonardo continuam ansiando pela oportunidade de amar e serem amadas de verdade. *Professor, escritor, membro da Academia Santista de Letras e Presidente da Contemporânea Projetos Culturais