[[legacy_image_324208]] Esta história me foi contada por meu adorado avô Sessé. Em uma tarde abrasadora do verão santista, ele me convidou para tomar a fresca no fundo do seu imenso quintal. À sombra de uma frondosa goiabeira, da qual ele tanto se orgulhava. Eu não teria mais que 6 anos. Mas a história me impressionou tanto que até hoje recordo frases inteiras do meu avô. Por isso, delego a narrativa a ele a partir de agora. Santos estava empolgada com a notícia que corria por toda a cidade. Ia chegar um grande circo alemão. Segundo se dizia, o maior do mundo. O circo chegou, com gigantescos caminhões transportando enormes jaulas, ocupadas por lindos animais: leão, tigre, elefante e os alegres macacos. A lona foi armada em um espaçoso descampado, cujo centro é hoje ocupado pela Praça Olímpio Lima, no coração da Vila Belmiro. Quando a noite caiu, carrinhos de pipoca, amendoim e castanhas disputavam os melhores lugares na entrada do circo. Uma animada banda, tocando dobrados, anunciava o começo da sessão. A apresentação inicial foi dos palhaços, que divertiam adultos e crianças com suas diabruras. Em seguida, uma loira estonteante equilibrava no ar pequenas esferas. Foi então que entrou, com toda pompa, um elefante de passos curtos e harmoniosos. Sobre seu dorso, uma linda morena. A grande atração da noite seria um casal de trapezistas que prometia saltar, em perigosas manobras, sem rede de proteção. Mas antes que essa atração se apresentasse, funcionários transportaram, para perto do público, uma gigantesca jaula, onde um leão se movia em todo seu esplendor. O domador, com chicote e gritos, o mantinha distante. Só que, diante do rei da selva, todo cuidado é pouco. A porta da jaula ficara imprudentemente semiaberta. Com muita habilidade e rapidez, o leão aplicou um drible de Garrincha no domador e escapou. A plateia reagiu em pânico. As pessoas se atropelavam, tentando fugir do perigo iminente. Com suas partes baixas quase esmagadas por duas tábuas de arquibancada, um homem soltava berros lancinantes. E implorava: “Senta, senta que o leão é manso!” A multidão, tomada de pavor, não se apiedou. Mas o leão sim. Ao invés de avançar em fúria, buscando alimento de carne humana, ele começou a desfilar garbosamente em torno do picadeiro. Completada essa exibição, saiu calmamente pela porta de entrada. Ganhou a Rua Carvalho de Mendonça em direção à Avenida Pinheiro Machado. Os transeuntes e os motoristas abriam caminho, estupefatos pela cena inacreditável. Ao chegar na confluência da rua com a avenida, a bela fera tropeçou e caiu dentro do Canal 1. Logo chegaram o domador, a enorme jaula e o Corpo de Bombeiros. Toda cautela foi colocada em prática, a fim de impedir um ataque frontal e demolidor. Porém, para surpresa geral da multidão que se acumulara no alto do canal, o leão não rugiu nem reagiu. Mesmo antes do chicote e dos gritos do domador, entrou na jaula como se fosse um gatinho mimoso.