(Vanessa Rodrigues/AT) Estive alguns dias atrás na cidade de Afuá, situada em uma ilha no Arquipélago do Marajó. Uma cidade toda construída sobre palafitas – tanto os imóveis particulares como as vias públicas. É muito conhecida por ter proibido o trânsito de veículos automotores na área urbana em 2002. Com o barateamento das motocicletas nos anos anteriores, a cidade, cujas vias são estreitas, passou a conviver com problemas típicos de municípios maiores, como o tráfego acentuado em horários de pico e os acidentes de trânsito, algumas vezes graves. A solução, naquele momento, foi bastante radical: o banimento dos veículos motorizados. Mas a população se adequou muito rapidamente. As bicicletas tornaram-se companheiras inseparáveis. Locais inventaram o “bicitáxi” e, hoje, até polícia e bombeiros fazem uso de viaturas movidas por tração humana. A cidade é relativamente densa, então, além das regras de trânsito, exercita-se cotidianamente a gentileza e a tolerância. Não há buzinas nas bicicletas. Por isso, é a cidade campeã em segurança no trânsito: nenhum acidente fatal desde então. O sistema de saúde agradece. Um leitor atento pode ter identificado nesse parágrafo várias similaridades com Santos. É uma ilha, bastante densa, com sistema viário antigo, em áreas de inundações frequentes (marítimas ou pluviais). Também são cidades planas. Culturalmente, se orgulham de ser cidades criativas. Mas Afuá, que detém índices socioeconômicos muito inferiores, a atitude do povo é muito mais afável, tolerante e condescendente. Talvez tenhamos algo a aprender com esse povo. Ao tratar de planejamento e de propostas para o futuro da Baixada Santista, em ocasiões pretéritas, usava como exemplo algumas cidades europeias, que igualmente têm similaridades geográficas e urbanísticas com nossa região. Principalmente Amsterdã, Copenhague e Estocolmo, que há décadas possuem sistemas integrados de mobilidade ativa e transporte público. Agora poderei somar outro exemplo, brasileiro, de uma cidade afastada e sem amplos recursos financeiros (ao contrário de Santos), e que mesmo assim tem um sistema ainda melhor que os exemplos europeus. É claro que a escala da cidade ajuda na implantação de uma mentalidade diferente (Afuá é dez vezes menor do que Santos). Mas já é uma realidade inspiradora, para que adequemos nossos espaços – do nosso jeito – visando uma convivência mais saudável entre os cidadãos. É preciso acelerar a implantação dos sistemas de mobilidade ativa e sua integração com o transporte público em Santos e nas cidades vizinhas. *Fabrício R. S. Godoi. Doutor em Arquitetura e Urbanismo