[[legacy_image_263617]] No momento em que escrevo estas linhas, um dos meus personagens inesquecíveis padece o estertor com cuidados paliativos. Vivi maior parte da juventude sob os maus augúrios da ditadura cívico-militar brasileira. Os soturnos governos de Costa e Silva, Médici e Geisel encarnavam as trevas nos porões da tortura e numa rotina de paranoia sob o céu que nos protege. O regime começou com o apoio e até mesmo a coordenação norte-americana, com o embaixador Lincoln Gordon e o adido militar Vernon Walters como expoentes do golpe que vingaria pelos títeres ocultos da CIA. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Em 1976, a eleição do democrata progressista Jimmy Carter selou a sorte da tirania como um raio de luz num horizonte plúmbeo. Pastor batista, cristão legítimo na fé e atitudes, um pacato plantador de amendoim no arquetípico estado do blues, a Geórgia no sul profundo, o tímido humanista se revelaria um presidente tíbio para o establishment bélico ianque, mas um campeão na defesa das liberdades civis. Foi Carter quem cunhou em definitivo o conceito de direitos humanos em consonância com a realpolitik. Defesa que tantos equívocos maldosos dos reacionários ainda suscita: direitos humanos sem relativizações e desvios de propósito pelos justiceiros de plantão. Foi a coragem visceralmente cristã que enfrentou e domou o aparato repressor dos DOI-Codis e masmorras brasileiras. Em parceria com dom Paulo Evaristo Arns e Ted Kennedy, acelerou com uma influência benevolente sem precedentes o desmonte da ditadura já agonizante. Nos idos de 1964, o tenentista Juracy Magalhães cunhou uma frase que nortearia a diplomacia nacional para o bem ou mal, com primazia do segundo: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. O infame dístico só foi justamente contradito pelos militares quando a Casa Branca decidiu imprimir uma tônica antitotalitária, mesmo na vigência da Guerra Fria. Depois de arquitetar golpes macabros no Chile e Argentina, no escopo da geopolítica de Kissinger com Nixon-Ford, com Carter as coisas mudaram. Era o mote para o avanço das oposições na denúncia dos crimes perpetrados pela ditadura e o embuste que foi o milagre brasileiro. Carter ainda sobreviveria quatro décadas ao fim do seu mandato levando os ditames de sua fundação: moradias populares em áreas vulneráveis, fiscalizando eleições em regimes com viés fraudulento e a defesa incessante da democracia como valor supremo. Ele representa o melhor do protestantismo tradicional, o melhor do espírito agregador do homem comum norte-americano, o melhor da sociedade se autogerindo em comunidades cidadãs e inclusivas. Pela queda de Somoza na Nicarágua, pelo estreitamento entre Israel e o Egito, pelo resgate da democracia brasileira, obrigado Carter, que será eternizado mais como herói global do que defensor das demandas do Pentágono e Wall Street. Leitor voraz da poesia de Walt Whitman e do galês Dylan Thomas, pioneiro em fontes alternativas de energia quando nem se falava em ecologia, exemplo lapidar do olhar holístico que os homens públicos devem manter para implementação de qualquer projeto. Não tratamos Carter aqui como santo, não tenho intuito da hagiografia: ele foi o mais próximo do ideal de liberdade que a América pode proporcionar dentro de seus parâmetros de império. O mais forte presidente fraco americano.