(Reprodução/X) A brisa fina de um final de outubro de 2025 trouxe, pelo rádio do carro, a doçura intemporal de “Summertime.” A voz, aveludada e sublime, era de Sarah Vaughan, Sassy, imortalizada ao lado de Billie Holiday e Ella Fitzgerald na reverenciada e divina Trindade do Jazz. A melodia atual desfez o tempo, levando-me num sopro a 1962. Era outono em Santos, e a grande diva, Miss Sarah Vaughan, subia ao palco do Cine Iporanga, o vibrante coração da Cinelândia Santista. No fervor da idade rebelde eu era auxiliar do corretor de Café Ivo Tuna, a quem presto imensa gratidão pela amizade fraterna. Por um capricho do destino e de sua generosidade, fui agraciado com um ingresso especial e privilegiado para o show da Sassy em nossa cidade. Santos fervilhava em uma efervescência de contrastes. De um lado, o triunfo: 1962 era o ano em que o “time dos sonhos” de Pelé sagrava-se Campeão Mundial em Lisboa, fazendo o orgulho transbordar na Praça Independência. Do outro, pulsava a arena social e portuária, com o ativismo político-social em alta, celebrando a conquista do 13º salário e lembrando que cada direito é fruto de luta incessante. Nesse cenário de glórias e correntes de tensão, o prestígio do Iporanga atestava a cidade como parada essencial no circuito global da alta arte. Na recepção do cinema, a curiosidade superou a timidez. De repente, surgiu ela: imponente, de tez negra brilhante, envolta num longo azul elegantemente justo. Um séquito a acompanhava. “Hello baby, How is it going?” Ouvi a voz e, em minha audácia juvenil, arrisquei, estendendo a mão: “I’m glad to meet you, Miss Vaughan”. Fui recompensado com um sorriso pleno e a frase que me tirou o ar: “Come with me Baby”. Feliz da conta, naquele ápice de privilégio, segui aquela carismática mulher até os camarins, voltando, pouco depois, apressado, ao meu lugar na plateia. No palco, ela nos presenteou com clássicos atemporais como The Shadow of Your Smile, If You Could See Me Now e Misty. Mas um instante gravou-se em cores eternas: o canto “a cappella” de Summertime, melodia suave e relaxante que funde o Jazz com o folclore, uma das mais famosas obras de George Gershwin. Aquele vozeirão, em sua musicalidade e técnica impecável, arrebatou por completo o adolescente na plateia. Hoje, reconheço ter sido um dos maiores presentes que o destino poderia oferecer a um garoto curioso, que labutava de dia, estudava à noite e sonhava um dia em ser engenheiro. Naquele ano singular, a voz orquestral de Sarah Vaughan, “A Divina”, pousou sobre o litoral de Santos, banhando a história cultural com uma glória tão imensurável quanto o futebol do Santos F.C. Assim como os dribles geniais continuavam a ecoar e a propagar o nome de nossa cidade mundo afora, o canto atemporal da Sassy, como um pincel de som, inscreveu Santos no eterno painel da alta arte. *Jose Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental