O jardim é o primeiro a dar as boas-vindas. Não o faz com palavras, mas com o verde que resiste aos anos. Cada caminho parece conduzir o visitante não apenas até a escadaria de sua entrada, mas também a uma época em que as pessoas caminhavam sem pressa. A sensação é de que o relógio do mundo decide parar por um instante, permitindo que vivamos esse momento com mais intensidade. Uma quietude solene toma conta do ambiente. À minha frente, uma escada coberta por um tapete vermelho convida à subida, como se pedisse que cada passo fosse dado com atenção. Por seus degraus, já passaram muitos passos, muitas existências e incontáveis silêncios, deixando marcas invisíveis na memória da casa. Ao entrar em seus aposentos, sou recebido por um espaço repleto de histórias, daquelas que, ao longo dos anos, preencheram as páginas de um livro de recordações. O primeiro suspiro parece nascer de um sorriso honesto, de quem se encanta diante do que vê e desperta, pouco a pouco, o silêncio guardado no peito. Caminho devagar, atravessando cada sala e preservando o recolhimento que o lugar parece exigir. Os olhos percorrem, inquietos, as paredes que guardam a construção de uma memória cultural e histórica, pertencente a uma época ainda viva nas obras ali retratadas. A satisfação de apreciar e mergulhar no universo da vida e da arte de cada autor conduz a uma reflexão sobre aquilo que, de fato, valorizamos em nossa existência. Penso no silêncio interior, no respeito pelo legado e na sensibilidade de contemplar o que os anos insistem em nos ensinar, mesmo quando tudo ao redor parece ser atropelado pela rapidez de uma rotina cada vez menos natural. Despeço-me do casarão com a reflexão aflorada pelas lembranças que seu acervo despertou em mim. Caminho lentamente pelo corredor, ladeado por árvores cujas sombras se estendem sobre o piso. O vento que sopra do mar toca meu rosto e provoca um leve arrepio. Ainda bem que trouxe um agasalho. Sigo em direção à saída, acompanhado apenas pelos meus pensamentos. Dou os últimos passos até a saída. O casarão branco permanece em sua nobre quietude, enquanto levo comigo um pouco da memória que ele tão generosamente compartilhou. Chego ao meu lar suavemente entorpecido pela cultura, trazendo lembranças despertadas naquele encontro com a arte e a história, consciente de que experiências como essa ampliam o aprendizado e fortalecem o reconhecimento do valor da memória santista e brasileira. *Sergio Rezende Peres. Cronista e contista