( Isaac Nobre/Agência Brasil ) O Brasil acaba de receber os resultados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil. O levantamento, como de costume, joga luz sobre um terreno que muitos adultos preferem ignorar — o cotidiano virtual de nossas crianças e adolescentes. E o que os dados revelam não é apenas preocupante. É alarmante. Nove em cada dez crianças e adolescentes brasileiros com idades entre 9 e 17 anos estão conectados à internet. O dado poderia ser comemorado como avanço na inclusão digital. Mas a comemoração para por aí. Porque o que eles fazem nessa internet, com quem falam, que tipo de conteúdo consomem e como estão sendo impactados por esse universo — isso é o que mais importa. E é exatamente onde falhamos, como sociedade, como famílias, como Estado. O relatório de 2024 revela que cresceu o número de crianças que tiveram contato com conteúdo violento, sexual ou discriminatório online. Também aumentou a incidência de cyberbullying e de interações com desconhecidos, muitas vezes adultos com más intenções. E mais uma vez, como ocorre ano após ano, a maior parte dos pais não sabe exatamente o que seus filhos estão fazendo na internet. Ora, senhores e senhoras, estamos falando de um universo em que o risco está a um clique de distância — e em tempo real. Os smartphones, tão presentes nas mãos dos nossos pequenos, têm sido berço de dependência digital, distúrbios de sono, isolamento social e ansiedade. E agora, com a inteligência artificial e algoritmos cada vez mais precisos, as crianças se tornaram o produto mais valioso do mercado digital — dados, emoções, impulsos, tudo é registrado, analisado e vendido. A infância virou matéria-prima. E onde está a escola, que deveria ensinar o uso crítico dessas ferramentas? Onde estão os governos, que prometem políticas públicas e não fiscalizam nem mesmo o básico? E onde estamos nós, adultos, que terceirizamos a criação de nossos filhos aos influenciadores digitais e aos vídeos de cinco segundos? O alerta foi disparado. Novamente. A TIC Kids Online Brasil 2024 escancara que o País precisa urgentemente de alfabetização digital real, proteção efetiva de dados de menores, políticas públicas sérias e fiscalização das big techs. Isso não é um capricho. É uma questão de sobrevivência. Não podemos mais continuar ignorando a gravidade do problema. A infância brasileira está sendo moldada por telas sem filtro, algoritmos sem ética e uma sociedade que ainda acredita que “só está no celular”. Não. Está no futuro. E ele já começou. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo