[[legacy_image_310288]] Sempre houve aqueles que afirmam saber tudo, sobre qualquer assunto. Não se intimidam com perguntas ou questões difíceis ou complicadas: na realidade, sempre têm a resposta pronta, articulada e com respaldo em dados e números. Os interlocutores são surpreendidos com tantas informações, sem condições de checá-las imediatamente. Prevalece a versão, incompleta e muitas vezes errada, sobre os fatos. Não quero dizer que os tudólogos – aqueles que sabem tudo, sempre – sejam mentirosos convictos, conscientes que estão enganando e iludindo os outros. Sua arrogância e empáfia são tão grandes que eles acreditam no que falam, em autêntico exercício de autoengano. São pessoas espertas e ágeis, capazes de captar rapidamente sinais e detalhes soltos, e interpretá-los e repeti-los à sua conveniência. São leitores de orelhas de livros ou, no máximo, aqueles que passaram os olhos em alguma crítica ou resenha publicada. Fazem leituras transversais dos jornais ou dos sites da internet, com interesse dirigido e localizado. São seletivos quanto ao volume de informação que registram, interessando-se apenas por aquilo que coincide com suas opiniões e pontos de vista. Trata-se da chamada racionalidade “enviesada”, que recolhe e amplia ideias já estabelecidas, em exercício permanente de confirmação ideológica, mas que, no fundo, revela apenas pré-conceitos arraigados. Os tudólogos não se intimidam com assuntos variados. Discorrem, com firmeza, sobre economia, política, saúde, segurança, psicologia, futebol, física quântica ou tecnologia da informação. Alguns se baseiam em dados e estatísticas, mas sabemos que os números podem ser lidos, interpretados e principalmente manipulados ao sabor de interesses pelos prestidigitadores de plantão. Um traço comum os une: o solene desprezo pela busca da verdade, com isenção e espírito crítico e aberto. A ciência é construída com base em investigação, pesquisa e demonstração, com evidências que levam muito tempo para serem consolidadas. O tudólogo tem certezas e pressa, e não se esquiva em afirmar, seja lá o que for, a respeito de qualquer assunto ou tema. Sua presença e ação não são inócuas. Não é apenas a futilidade da vaidade daqueles que adoram se promover perante os demais como doutores sabe-tudo. Repetir e propagar inverdades, deformadas ao sabor das elaborações dos tudólogos, acaba por induzir audiências ao erro, ao preconceito, ao ódio. Isso fica mais grave quando eles se arvoram em comunicadores, utilizando a mídia como comentadores de programas ou podcasts. Sem foco ou atenção, opina-se sobre tudo, com declarações enfáticas sobre qualquer assunto. E o mais dramático é que o público ouvinte se deixa levar por esse mecanismo. Fico estarrecido com a superficialidade dessa atitude. O processo civilizatório se desenvolveu ao longo da história como resultado do avanço da racionalidade em todos os níveis. Perder tal noção, e enveredar pelo caráter instantâneo da informação (seja transmitida pelas palavras, seja pelas imagens), sem consciência ou espírito crítico, é ameaça notável, com consequências graves. Os tudólogos que infelizmente proliferam por aí agravam ainda mais esse quadro.