(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Outro dia me dei conta de que o mundo acabou. Não com explosão, nem meteoro. Acabou de leve, com gosto de alguma coisa que não é. Estamos vivendo a era do sabor. Sabor de tudo. Sabor de nada. Comprei um suco. Sabor laranja, mas não é laranja. Li o rótulo como quem lê bula de remédio tarja preta. Tinha tudo ali, menos a laranja. Era uma espécie de laranja conceitual. Uma laranja que fez faculdade, virou tese, mas nunca foi fruta. Fui ao mercado. Carne sabor picanha. Aquilo me ofendeu pessoalmente. Picanha é coisa séria. Aquilo era um teatro bovino. Um figurante de churrasco. Um impostor com crachá. E a cerveja. Sabor cerveja. Sem álcool. Sem culpa. Sem graça. Sem nada. É o sujeito que vai ao bar e pede um abraço sem encostar. Fica ali, bebendo a ideia da cerveja. Uma relação platônica com o copo. A moda pegou. Tudo agora é sabor. Inclusive gente. Tem macho sabor homem. Fala grosso, postura de guerreiro, mas na primeira dificuldade pede colo e senha do Wi-Fi. Um leão de Instagram e um gatinho de realidade. Tem feminista sabor mulher. Discursa, posa, lacra, mas na vida real negocia o próprio discurso como quem troca figurinha repetida. Uma coragem de filtro. Um empoderamento de legenda. E surgiram as versões gourmetizadas do nada. Influenciador sabor político. Fala muito, resolve nada, e ainda sai com publi no final. Economista sabor economista. Explica a crise como quem comenta novela. Cantor sabor cantor. Voz afinada no aplicativo, desafinada na existência. Dupla sertaneja sabor raiz. Dois nomes, um talento parcelado em doze vezes sem juros. A verdade virou maquiagem. Sucesso sabor sucesso. Rico sabor rico. Feliz sabor feliz. É tudo muito convincente até o boleto chegar. Lembrei até do Denorex. Parece, mas não é! Ó. Outro dia pensei que estamos colocando a vida no divã errado. Um sujeito que nunca foi resolve analisar o que nunca entendeu. É o mundo consultando a própria imitação. O problema não é parecer. O problema é quando ninguém mais é. A gente vive cercado de versões. Versões de comida, de gente, de sentimento. Tudo com gosto de alguma coisa que nunca chega a ser. E talvez o mais perigoso seja isso. Porque o sabor engana. Seduz. Convence. Mas não sustenta. No fim das contas, o mundo virou um grande cardápio de ilusões. Bonito, variado, bem apresentado. E completamente vazio. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo