(Alex Brandon/Associated Press/Estadão Conteúdo) O título dessa crônica exala dose de feromônio político com a capacidade de atrair à leitura os que nutrem certo fetiche e também os que possuem enorme repulsa por Donald Trump. Não gosto de Trump, e a antipatia por ele tem motivo: em minha régua de virtudes e desvirtudes, a arrogância (situada no extremo negativo da régua) tem o condão de anular todos e quaisquer traços meritórios de alguém. É o resultado de 30 anos na Polícia Militar ouvindo de desconhecidos: “Sabe com quem está falando?”. É o caso de Trump – a arrogância anulatória das (eventuais) virtudes. Aqui, pretendo fingir ser um cronista ungido pela imparcialidade. Ao menos, busco distinguir o “Trump desvirtuoso” do “Trump presidente”. A campanha do recém-eleito presidente americano se alicerçou em duas bandeiras: economia e imigração ilegal. A rigor, em bandeira única na medida em que a imigração desenfreada traz impactos deletérios aos sistemas de segurança pública e de saúde, e ao mercado de trabalho, portanto afeta a economia. Trump pretende expulsar milhares, ou até milhões, de pessoas, muitas delas vítimas da miséria ou do crime em seu país de origem. Mas como não respeitar a vontade dos eleitores americanos que votaram nos delegados republicanos justamente com esse propósito? Ponto central nessa questão – e, intencionalmente, ignorado por muitos – é o fato de se tratar de imigração ilegal. O que é ilegal deve ser combatido sempre ou somente quando a ilegalidade reside em ações que subjetivamente desaprovamos? Afinal, não normalizar o que é ilegal, incluindo a imigração, não é condição para a sobrevivência da própria democracia? Só se pode falar em respeito à democracia diante de propostas de candidato em quem votamos? De acordo com as propostas apresentadas durante a campanha republicana, ainda que sob o ufanismo do lema “America First Again”, há a real possibilidade de Trump realizar um bom governo para os americanos e “nem tão bom” para o resto do mundo. Talvez, caiba uma analogia: um presidente da república deve se comportar como chefe de uma gigantesca família, não? Há sentido em se preocupar prioritariamente com a prole do vizinho enquanto os próprios filhos crescem nas ruas sem educação e sem ter o que comer? O que o eleitor americano deveria priorizar: o combate à inflação e à criminalidade em seu país ou as mazelas no resto do mundo? Não gosto de Trump, mas, se fosse americano, teria ajudado a elegê-lo. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da PM, advogado e escritor