(Shealah Craighead/Divulgação/Casa Branca) Os meios de comunicação ofereceram ao público um salutar esforço didático para explicar as peculiaridades do complexo sistema eleitoral dos Estados Unidos. Feito isso, agora a tarefa é tentar destrinchar as expectativas sobre o que significa a vitória eleitoral de Donald Trump sobre Kamala Harris para o mundo. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O republicano, figura exótica por suas atitudes no passado e no presente, já entrou para a história por fatos emblemáticos: é o primeiro ex-presidente dos EUA condenado criminalmente (caso da compra do silêncio de uma atriz pornô em 2016, cuja sentença, que seria em setembro, pode sair finalmente no final de novembro). Ele também protagoniza outro feito estatístico: torna-se o segundo presidente a vencer duas eleições não consecutivas. O primeiro foi o democrata Grover Cleveland, no final do século 19. Entretanto, há uma outra fileira de processos que o republicano terá de responder: tentativa de interferir no processo eleitoral da Geórgia em 2020, o suposto envolvimento na invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, e posse ilegal de documentos sigilosos ao deixar a presidência em 2020. É muito provável, dizem analistas, que a recente vitória pode significar o arquivamento de todos os processos. O republicano retorna ao poder em meio a fatores nada desprezíveis: o comportamento errático do Partido Democrata, que apostou inicialmente em Joe Biden e mudou o postulante diante da desconfiança do eleitorado sobre sua sanidade física e mental; a entrada tardia de Kamala Harris na corrida eleitoral; o assombro com a questão dos imigrantes ilegais; e a economia, que, embora novamente robusta no pós-pandemia, mantém uma inflação controlada, mas alta para o público interno. Com discurso abertamente xenófobo, racista e misógino, Donald Trump se consolida como o farol da extrema direita mundial. E aqui, vale destacar que a polarização, para os padrões estadunidenses, não absorve o embate sob postulados no modelo clássico direita x esquerda. Em outras palavras, assinala, sim, uma expressão altamente conservadora, preconceituosa e intolerante que se observa em outras partes do mundo, no Brasil, inclusive. O presidente Lula cumpriu o ritual da práxis diplomática, parabenizando o republicano e lhe desejando sucesso na nova empreitada. Porém, sabe-se da ligação de Trump com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro, e, por certo, o diálogo com Brasília não estará assentado em bases, digamos, das mais amigáveis. A menos que o pragmatismo fale mais alto, as relações podem ter alguns dissabores, mas nada além de palavreados menos simpáticos dos dois lados. Até porque, a América Latina não é uma região de alta prioridade para a geopolítica compreendida pelos EUA. Este Trump 2.0 terá que lidar, a rigor, com ao menos duas guerras de alto poder corrosivo para o restante do mundo: Ucrânia e Oriente Médio. Pode muito bem, como já disse, abandonar a milionária ajuda externa ao país do Leste Europeu e retomar sua promessa de acabar com o conflito em negociações com a Rússia de Vladimir Putin. Até agora, entretanto, não mostrou um “plano de paz” concreto para a situação. No Oriente Médio, onde o governo do premiê israelense de Benjamin Netanyahu realiza um massacre em Gaza e ataca áreas habitadas do Líbano, tampouco apresentou qualquer alternativa. Como ele não mudou sua visão sobre os chineses, é esperado que reaqueça a Guerra Fria 2.0, esperando frear o avanço de Pequim no que se entende como um ambiente multipolar. Avesso ao multilateralismo, organizações internacionais governamentais também não estão no seu radar. Enfim, o mundo espera com cautela, apreensão e até uma certa dose de receio o que será o novo mandato de Donald Trump. *Jornalista e pós-graduado em Relações Internacionais