<p data-end="615" data-start="134">Historicamente, a liberdade de imprensa foi erguida como o quarto poder, um cão de guarda da democracia, destinada a vigiar os excessos do Estado. No entanto, o cenário atual inverteu a polaridade dessa vigilância. Hoje, o conflito não se dá apenas entre o jornalista e o político, mas entre a informação e a integridade do indivíduo. No epicentro dessa colisão, o cidadão comum tornou-se o dano colateral de uma engrenagem que prioriza o engajamento sobre a apuração profissional.</p> <p data-end="1245" data-start="619">Se antes o “tempo da notícia” era ditado pelo fechamento das edições impressas, hoje, ele é ditado pelo algoritmo. Essa pressa gera um subproduto perigoso: a sentença antecipada. O direito à imagem e à presunção de inocência garante que ninguém seja condenado sem o devido processo legal. O problema surge quando matérias rasas ou opiniões de influenciadores e figuras que se têm como “relevantes” servem de combustível para as massas. O que deveria ser um debate público transforma-se em um linchamento virtual, onde o direito de resposta é irrelevante, pois a reputação da vítima já foi estilhaçada em mil compartilhamentos.</p> <p data-end="1493" data-start="1249">Vivemos a era da “voz de autoridade” sem filtro. Quando uma pessoa de grande alcance emite juízo de valor ou compartilha uma informação parcial, ela não está apenas exercendo sua liberdade de expressão, ela está mobilizando um exército digital.</p> <p data-end="1769" data-start="1497">O linchamento de reputação nas redes sociais é uma pena perpétua para um crime que, muitas vezes, nem sequer foi cometido. Diferente de um jornal que publica uma errata na página 2, a internet não esquece, nem perdoa. O algoritmo premia o escândalo e enterra a retratação.</p> <p data-end="2138" data-start="1773">Estamos diante de um desafio ético. Não se trata de amordaçar as redes, mas de resgatar a responsabilidade civil. A liberdade de expressão não é um salvo-conduto para a destruição de biografias. Por outro lado, temos a responsabilidade de quem publica. Influenciadores devem ser equiparados à veículos de comunicação quando o impacto de suas falas gera danos reais?</p> <p data-end="2499" data-start="2142">A democracia exige, sim, uma imprensa livre, mas a civilidade exige cidadãos protegidos contra a barbárie digital. Se permitirmos que a liberdade de expressão se transforme em liberdade para destruir, estaremos trocando o estado de direito por um estado de vigilância mútua, onde a próxima vítima pode ser qualquer um de nós, a apenas um print de distância.</p> <p data-end="2559" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2503">*Alvaro Soares. Advogado e diretor adjunto da OAB-Santos</p>