[[legacy_image_326053]] Será possível o mundo abandonar o uso de combustíveis fósseis até 2050, conforme propõe o documento final da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em 2023 (COP28), recém-encerrada em Dubai? O desafio é enorme e o compromisso firmado na cúpula não foi guarnecido por planos para alcançá-lo, mas o cenário não deixa dúvidas sobre a necessidade de ações para mitigar o aquecimento global, que tem prejudicado vidas e atividades essenciais como o transporte de cargas. Uma situação crítica é a seca sem precedentes do Canal do Panamá, que limitou o tráfego e tem provocado grandes engarrafamentos de navios em ambos os extremos da hidrovia – no Pacífico e no Atlântico. A fila de embarcações paradas, aguardando autorização para cruzar o atalho, chegou a mais de 200 naus em meados de 2023. O impacto no comércio global tem sido enorme, uma vez que 5% das cargas marítimas passam por ali. A Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas (OMM) confirmou que 2023 foi o ano mais quente já registrado, e a maior intensidade do fenômeno El Niño, que aumenta a temperatura das águas do Oceano Pacífico, continuará nos próximos meses, precipitando tempestades, estiagens e outros eventos extremos. Para as cadeias de suprimentos, o resultado é mais atrito – ou seja, mais complicadores, mais pressão e cobrança das partes envolvidas, mais taxas e custos extraordinários. Uma pesquisa recente feita pela International Data Corporation (IDC) junto a mais de 1.000 executivos de grandes empresas globais apontou que 32% das companhias têm desembolsado mais do que o previsto em operações logísticas, devido a rotas mais longas, atrasos e aumento de demurrage (cobrança de sobrestadia de contêineres em terminais). Além de reduzir a eficiência, tudo isso leva à maior emissão de poluentes. A maior complexidade operacional, também motivada por conflitos geopolíticos, problemas de oferta de produtos e disputas trabalhistas, tem acelerado a transformação digital das cadeias de suprimentos. As áreas de logística têm adotado, por exemplo, plataformas que proporcionam visibilidade de ponta a ponta em tempo real. Com o uso de inteligência artificial, machine learning e outros recursos avançados, elas rastreiam cargas com altíssima precisão e também permitem mensurar as emissões de carbono de escopo 3, decorrentes de processos que ocorrem fora dos ambientes fabris – e que podem compreender 75% das emissões de alguns negócios. Conhecendo suas emissões, as empresas podem traçar estratégias para reduzi-las. Decisões nesse sentido podem soar pequenas diante de transições ambiciosas e do senso de urgência no combate ao aquecimento global. No entanto, grandes mudanças não acontecem da noite para o dia – ou, como já pontificou Mark Twain, não nos libertamos de hábitos atirando-os pela janela. É preciso fazê-los descer a escada, degrau por degrau.