[[legacy_image_262038]] Acredito que se nasce poeta. Um gene benévolo à sensibilidade nos toma e define para ressignificar o mundo. Nessa condição, quis o acaso crescesse vizinho do último filho de um dos maiores poetas da pátria: Vicente de Carvalho. Foi ali na Rua Bolívar, ouvindo diariamente o caçula do Poeta do Mar, já octogenário, que recebi a bênção para ser “gauche” na vida. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! De Vicente a unção pela maresia, de Drummond o dom de escrever como quem sente, profundamente. Mas o poeta não é o tal habitante da torre de marfim e com Vicente de Carvalho aprendi que é o que tudo lê sem preconceito e muito luta. Ontem, 22 de abril, nos 99 anos de sua partida, devemos começar a resgatar legados do artista santista mais famoso e ainda não devidamente reconhecido. Jurista e jornalista apaixonado, republicano, abolicionista, considerado em todos tratados de teoria literária um dos quatro maiores poetas parnasianos brasileiros, nos deixou além da lira, os jardins da praia! Pouca coisa? Numa carta ao então presidente, seu amigo Epitácio Pessoa, em 1921, preocupado com a degradação ambiental e urbanística da nossa orla (parece hoje!), ele exigiu a cessão ao Município da faixa de areia para fim público exclusivo de uso ao deleite da comunidade. Se nos gabamos tanto de estarmos no Guinness Book em extensão ajardinada devemos ao poeta mais lido do Brasil nos primeiros 25 anos do século passado. O homem era um vulcão que não parava de escrever em defesa da pesca sustentável, sobre as belezas de Bertioga e Iguape, pelas comunidades caiçaras e ainda tinha tempo de viver, pescar e 16 filhos. Protetor dos cativos que criaram o Quilombo do Jabaquara, correu riscos pela abolição. Foi um dos mais longevos colaboradores do Estado de São Paulo, do cunhado Julio de Mesquita, e de A Tribuna, onde sentia a pena afiada estar em casa. Desembargador, tribuno, seu lance era curtir a poesia, pão de cada insaciado dia. Admirado por Fernando Pessoa, com quem se correspondia, ídolo de Mário de Andrade, de certa forma foi o causador indireto da Semana de 22, urdida para destroná-lo. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, seu busto coroa o Largo do Arouche, em frente à Paulista de Letras. Só o inesquecível Chorão o supera entre artistas santenses em citação nos sites de busca. De nome do agitado distrito no Guarujá até bairro que sedia o Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, Vicente de Carvalho é citado desde o alternativo Jorge Mautner ao ex-presidente do STF, o poeta Ayres Britto, em entrevistas como modelo lírico. Uma obra reunindo sonetos e trovas o consagraria com prefácio de seu camarada Euclides da Cunha: Poemas e Canções. Ando por toda parte com oficinas e saraus e é impressionante a popularidade de Vicente nas quebradas que resistem fazendo poesia. Mas falta reeditá-lo! Antológico, resta tirá-lo do estado de estátua, desfossilizar o mestre Vicente de Carvalho, levá-lo às escolas de Santos pelo talento e por nossa gratidão! Poesia está longe de ser chata, poesia nada tem de babaca. As esquinas com slams e raps provam isso. Vá à internet e leia Velho Tema e Palavras ao Mar, desafio não se encante e adote Vicente de Carvalho, poeta de cabeceira. Ao estimado prefeito fica o apelo: honremos o poeta que nos deixou beleza escrita e encarnada no horizonte da barra. Em 2024, o Brasil comece pelo berço com homenagens ao mestre. E para um poeta, homenagem é lermos seus versos!