(Domínio público) O casal Katia e Lineu vivia bem e tinha cinco filhos: um rapaz de 17 anos chamado José Eduardo, três meninas, Lourdes, Stella e Susi, e o caçula de 13, Luís Carlos. A casa estava sempre limpa e em ordem (não tinham empregada), pois cada um tinha uma função. Entretanto, quando chegavam juntos do trabalho, havia sempre o mesmo problema. O mais velho tinha batido no caçula. Sentados, lado a lado, o casal censurava o mais velho por ter batido no irmão. José Eduardo justificava a agressão dizendo que Luís Carlos, o provocava e ele, então, batia nele. As três irmãs eram testemunhas das agressões diárias, mas não se metiam. O mais novo, sabendo que tinha o apoio dos pais, provocava o irmão: “quero ver se você vai me bater hoje.” O mais velho se justificava dizendo que não suportava a provocação e batia mesmo. Todas as noites, o mesmo problema. O casal foi para o seu quarto e, em pé, um na frente do outro, discutiu o caso e tomou uma decisão. Os pais voltaram para a sala e anunciaram uma solução: matricular os meninos numa academia de judô, que também ensinava capoeira. Os rapazes aceitaram bem a decisão, mesmo porque gostavam de atividades esportivas. No dia seguinte, começaram na prática do judô, tipo de luta que chegou ao Brasil com as imigrações japonesas no Porto de Santos, pelo navio Kasato Maru, no início do século 20. As três irmãs ficaram curiosas pela rotina dos irmãos e se interessaram também em praticar atividades físicas. Na mesma academia, as meninas começaram a aprender capoeira, estilo de luta resultado da resistência cultural dos escravos ou libertos no Brasil, desde o século 17. A capoeira se tornou uma atividade multicultural praticada por negros, brancos, mulatos, indígenas, cafuzos e europeus, principalmente na zona do cais, onde era usado como ferramenta de defesa por trabalhadores libertos e escravizados contra a violência do Brasil Império, no século 19. Santos, nessa época, foi local estratégico da passagem de dom Pedro Príncipe Regente para proclamar a Independência do Brasil e foi onde o então futuro imperador presenciou a capoeira sendo consagrada como símbolo de sobrevivência e liberdade. Tornou-se o caçula, Luís Carlos, tão bom aluno que logo passou a representar a academia em atividades do esporte e logo ficou conhecido no Estado de São Paulo e no Brasil. Com o passar do tempo, os irmãos saíram de casa para trabalhar e adquirir autonomia própria. Dez anos depois, sempre amigos, quando se encontravam, lembravam esse caso e riam muito do que tinham passado na adolescência. Ainda bem! *Wilma Therezinha Fernandes de Andrade. Mestre e doutora em História Social, historiadora e professora da Universidade Católica de Santos (UniSantos)