[[legacy_image_357501]] O poeta Vicente de Carvalho põe o pince-nez de aros de tartaruga e abre o exemplar de A Tribuna de 22 de janeiro de 1906, em um tórrido verão santense em sua casa nova no Caminho da Barra, desembocando na Praia do Boqueirão. Lê a manchete estarrecido e depõe o jornal em lágrimas mal contidas diante da notícia que poderia ter saído das mais sanguinolentas tragédias gregas. Deixa-me desenovelar esse enredo triste. Tudo transcorrera no solar do senador Peixoto Gomide, eminente potentado da República recém-instaurada. Fora presidente de São Paulo na virada do século. Sim, os estados eram governados por presidentes na precária federação, tendo São Paulo e Minas puxando a locomotiva lenta sob a política do café com leite. Peixoto Gomide substituíra Campos Salles, que tinha sido eleito presidente no Catete. Barão do Café, o magnata esclarecido tinha até um padrão liberal para os costumes duma sociedade elitista dirigida por quatrocentões da Belle Époque. Dirigia suas fazendas, uma prestigiosa banca advocatícia, dirigiu o estado, só não contava com as artimanhas do destino, das ‘moiras’ tecendo um amor fatal no coração de sua aristocrática família. Generoso benfeitor, pródigo em favores a necessitados, o senador tomara como protegido um poeta pobre nascido em Cotia e colega de estudos de seu filho no Largo São Francisco. Mantinha o jovem escritor que se defendia até então em expedientes humildes para se manter nas Arcadas. Seu nome, Manuel Batista Cepelos , tradutor dos simbolistas franceses, futuro romancista e criador de versos que caíram, apresentado pelo padrinho, nas graças do Poeta do Mar. Cepelos se apaixonara de pronto pela linda filha do senador, Sophia, e para espanto dos muitos amigos “habitués” do casarão da Rua Benjamin Constant, colada à Sé, tivera anuência do pai para namoro e casamento. O poeta brilhante, dispensa dizer, boêmio, sem pretensões além do bacharelato e o despojamento típico dos líricos. Era o melhor dos mundos até que a maré da sorte inverteu seu rumo. Cresce na alma do estadista uma angústia perturbadora que o faz se consultar com o insigne Dr. Franco da Rocha. Insone, deprimido ao extremo, o senador irrompe no salão senhorial enquanto a filha borda uma colcha para seu enxoval, sem pressentir estar cozendo sua mortalha. Peixoto tentava de modo surpreendente dissuadir a filha de uma união que há pouco aprovava com entusiasmo. Sem êxito, atira à queima-roupa em Sophia. Os estampidos ouvidos pela esposa Ambrosina ecoam por todo palacete. Era tarde. Diante dos que chegam para impedir a fatídica cena, depois de um primeiro tiro falho, o senador dá cabo da própria vida com outro na cabeça, tombando sobre o piano. O poeta inconsolável viveu pouco para encontrar razões ao desatino do protetor zeloso. Morreria em 1915 pelas próprias mãos, jogando-se entre as pedras da Glória no Rio de Janeiro. São Paulo tornara-se insuportável, mas o drama o perseguia. Uma infausta conjunção de acasos reunira personagens improváveis. Batista seria fruto de um amor de juventude do senador com uma escrava da família. A descoberta tardia viera selar um episódio que marcaria toda sociedade brasileira. A Tribuna de Santos tivera uma das mais retumbantes manchetes. Nosso poeta Vicente perdera o amigo, a pupila e um imenso colega de pena, na vida e na arte.