[[legacy_image_339050]] Fazer tudo por perto, deslocar-se só quando necessário e de transporte coletivo ou bicicleta, conceito simples mas bem embalado por um urbanista franco-colombiano encampado pela imaginosa prefeita de Paris, Anne Hidalgo. A “cidade de 15 minutos”, na verdade, já existe no Brasil faz tempo, de modo difuso e colocando num mesmo raio espacial moradia, serviços e comércio, bem distante do exclusivismo dos shoppings. O professor Paulo Mendes da Rocha cansou de defender o Conjunto Nacional e o Copan como exemplos virtuosos da hiperverticalização: tornar possível a arte do encontro num arco de tempo-espaço que possibilite o devaneio. Contundente, falava da tirania representada pela estupidez dos automóveis. Muitos amigos estranham quem nunca dirigiu como eu, mas dirigir vai se tornando insuportável em qualquer cidade e os jovens antenados sabem disso. O poeta é sempre um peripatético, como chamavam os gregos que filosofavam andando. Já que citei Paris, foi lá que Baudelaire imortalizou o poeta flaneur: o que espreita rostos, beberica observando tipos e situações, caminha a esmo fascinado pelo horizonte descortinado. Em Santos, um bulevar espontâneo se destaca com ritmo próprio proporcionando tudo rapidamente e próximo: a Rua Trabulsi, corredor de prédios onde os navios fazem a curva, criando a magia duma quarta-parede. Parecendo saída das fitas de Vittorio De Sica com figuras humanas das mais díspares, turistas, boêmios matutinos e habitués de happy-hours ao ar-livre. É o protótipo perfeito de cronourbanismo, quando fazemos tudo lado a lado e com boa gente ao mesmo tempo. A banca de jornal onde se acha tudo, a ternura da antiga quitanda, os bares brasileiríssimos, o mercadão de marca, a lan house polivalente e o bazar R\$ 1, 99. Açougue e boutique, café e pastelaria, tudo com alegria estilo Copacabana, mas é Santos com pão de cará e noroeste. O ônibus vindo de São Paulo parando na porta, banhistas esticando nas compras de última hora, chaveiro e loja de ferramentas, sorveteria e salões de beleza. A Trabulsi, sem saber ou sabendo, encarna o melhor exemplo de convivência para a agora eleita cidade mais verticalizada do Brasil. E não bastasse minha admiração pelo modelo convergente de comportamento, bolsos e idades, a Trabulsi acaba de ganhar árvores! Como um canivete suíço, trata-se da rua de mil e uma utilidades de onde se passa da placidez burguesa da Ponta da Praia ao popular na sua melhor expressão de humanidade. Sem a truculência de guaritas e seguranças, sem disputa pela melhor vaga entre pedestres, uma rua nua com seu melhor recheio: gente interagindo com gente, espantando qualquer melancolia. Analógica na era da digitalização de afetos, ao rés do chão como o poema em linha reta do Pessoa, ainda que sem tabacaria. Porque democracia começa nas ruas, públicas como sempre sugere a melhor arquitetura: integradora de modos, formas, sonhos. Ruas de passeio, pequenas peripécias do cotidiano, aventuras prosaicas, alívio aos abismos de concreto. Já que verticalizamos, proporcionemos ao adensamento a chance de se redimir pela troca em que o próximo seja mesmo próximo, a casa não diste do lazer , da conversa, do chá, da cerveja e simpatia.