(José Cruz/ Agência Brasil) A recente pesquisa Quaest-Genial mostrou que, embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidere a corrida presidencial em todos os cenários, no 1º e 2º turnos, diminuiu sua vantagem sobre o principal oponente, Flávio Bolsonaro. Na pesquisa anterior, de janeiro, a vantagem de Lula sobre Flávio nos diversos cenários de 1º turno variava entre 7 e 17 pontos; agora oscila entre 4 e 8 pontos. No 2º turno, o levantamento mostra que a vantagem do presidente sobre o senador era de dez pontos no fim do ano, passou para sete em janeiro e agora está em cinco. Os analistas apressaram-se a tirar duas conclusões da pesquisa: uma, que Flávio Bolsonaro consolidou-se definitivamente como o adversário de Lula; outra que não há espaço para a chamada terceira via, uma vez que nomes alternativos tiveram até aqui desempenho muito baixo nas pesquisas. É preciso cuidado, porém. Em primeiro lugar, é natural que o eleitorado que rejeita Lula (incluindo bolsonaristas, direita não bolsonarista e parte dos independentes) tenha se inclinado por Flávio Bolsonaro; afinal, ele é o único candidato lançado no campo da oposição, e todos sabem disso. Até aqui a eleição presidencial continua absolutamente polarizada, mas não se pode afirmar que será assim até outubro, revelando autêntica guerra de rejeições: os que não gostam de Lula votam em Flávio; os que rejeitam o bolsonarismo inclinam-se por Lula. É importante observar que, segundo a Quaest, 32% do eleitorado se diz independente, um contingente nada desprezível, que se afigura como decisivo neste ano. Em novembro, 24% disseram que o melhor resultado seria um nome nem ligado a Lula, nem a Bolsonaro. Daí o espaço percebido por Gilberto Kassab, líder do PSD, que tem afirmado que seu partido lançará candidato no próximo pleito. É muito difícil que essa estratégia vá funcionar. Além da polarização bastante cristalizada, os nomes citados (Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Jr, do PSD, e Romeu Zema, do Novo) não possuem carisma ou apelo popular. É pouco provável que consigam empolgar os eleitores, começando pelos independentes. Mas afirmar que, dados os atuais números, isso seria impossível não leva em conta um detalhe fundamental: não há candidato escolhido ou lançado. Quando (e se) houver, o cenário pode ser alterado. É preciso, portanto, cuidado e atenção para os próximos passos e lances da corrida presidencial. Lula e Flávio Bolsonaro estarão, sem dúvida, na disputa, mas a terceira via não pode ser descartada desde já. No mínimo, ela será decisiva no 2º turno. P.S. Uma homenagem ao prof. José Álvaro Moisés, da USP, falecido no último dia 13. Ele foi um dos meus primeiros professores de Ciência Política e um dos responsáveis pela minha entrada no curso de mestrado da instituição, em 1988. Notável mestre, um defensor e lutador pela democracia. Fará muita falta. *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do IPAT – Instituto de Pesquisas A Tribuna