(Alexsander Ferraz/ AT) Depois de um dia extenuante de trabalho, volto para casa querendo descansar. Entro, tomo meu banho, como um leve alimento e procuro algo para relaxar: um bom livro, uma canção que me levaria ao relaxamento, enfim, o silêncio desejado e merecido. Eis que tudo é interrompido pelos ruídos oriundos do trânsito, das buzinas, dos sons altos e extremamente desconfortáveis que vêm das ruas. O sinal fecha e, bem perto, um carro treme ao som de uma produção pseudomusical que ‘rasga’ meus ouvidos. Fico imaginando que o condutor do veículo já esteja surdo ou irá ficar. O som invade como uma tempestade sem aviso, rasgando o silêncio. Não é música, é uma afronta. Não são motores, são feras rugindo sem propósito. Vibrações atravessam as paredes como se elas fossem frágeis membranas, e as vidraças ficam a tremer, quase em um protesto silencioso, ameaçando ceder e pedir clemência a qualquer momento. Estou em meio ao caos, tentando compreender como algo tão breve pode carregar tamanha força. É quase irônico: a liberdade ostensiva dos que dirigem essas máquinas parece colidir com a clausura imposta e agressiva, a ferir nossos ouvidos, a incomodar a nossa paz. Eles passam, mas deixam atrás ondas e resquícios de sua existência violenta e da intolerância que parecem querer marcar presença a cada decibel. O que é esse desejo de ser ouvido, mesmo que por força? Algo egoísta, talvez, mas também profundamente desumano. É um grito encapsulado no ronco de um motor de escapamento aberto, de um veículo de quatro rodas ou de uma motocicleta com seus escapamentos abertos. Seus condutores aceleram como se, para eles, que tudo podem, os prejudicados que fiquem conformados ou que tapem seus ouvidos. Uma vaidade embalada por ruídos de amplitudes colossais, sejam de escapamentos ou de caixas de som monstruosas. Eles passam, mas deixam impressões lentas, que reverberam muito além da audição e continuam a serem ouvidas mesmo que se distanciem. As vibrações continuam; algumas constantes, outras em ritmos descompassados. É quase como se o nosso aconchego invadido se tornasse um instrumento, ressoando sem querer. Tento me concentrar, ignorar, mas falho. A cada tremor na vidraça, há uma inquietação interna que ecoa, questionando o porquê dessa batalha acústica perversa, na qual há o reprodutor e a vítima, sempre? Talvez seja apenas um reflexo da época, em que o pandemônio é a nova moeda social. Quem faz mais barulho parece querer existir mais, aparecer mais porque estão muito infelizes e, por não querer a felicidade alheia, almejam (e conseguem) os seus contínuos quinze segundos de fama, todos os dias. Entretanto, para quem apenas escuta, não há escolha. Há somente um silêncio desejado, mas ausente, substituído por ondas ruidosas que estremecem não só as vidraças, mas também o espaço interno de quem se vê refém do ruído. *Maurilio Tadeu de Campos. Mestre em Educação, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro da Academia Santista de Letras.