[[legacy_image_260390]] Entre 1985 e 1986, eu residia em Nioaque, Mato Grosso do Sul, bem no centro da maior planície alagada do mundo. Era um lugar tão remoto que, ainda hoje, costumo dizer: “para tomar um chope, eu rodava 460 km, ida e volta: 90 km em estrada de terra batida, até Aquidauana, mais 140 km até Campo Grande, desviando dos buracos rodeados por asfalto”. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O vilarejo tinha apenas um telefone fixo pouco confiável e enorme fila de prioridades. Portanto, nosso contato com o “mundo” era apenas por torres de telecomunicação e rádio com uso de “câmbio!” entre uma ponta e outra. Já era uma boa evolução, pois, no terceiro quartil do século passado, em viagem anterior ao Pantanal, vi “estação-rádio” alimentada por dínamo manual e antenas de fio de cobre esticadas entre duas árvores. Nós dispúnhamos de uma pequena enfermaria-hospitalar, com efetivo completo – dobrado, em quantidade de médicos e enfermeiros – e da única ambulância existente naquela enorme região geográfica. Dentre outros afazeres profissionais, nós caçávamos cobras para trocar por soro, em Campo Grande. Com enorme satisfação e belas recordações, eu tinha sob minha responsabilidade pouco mais de 400 jovens, aos quais eram concedidos três dias de folga, uma vez por mês, para visitarem suas famílias. Muitos trabalhavam em enormes fazendas e, com muita sorte, conseguiam caronas em caminhões. Os caminhoneiros eram solidários, pois sabiam que os jovens não tinham outra opção. Os jovens de hoje talvez não acreditem nesta história, mas, talvez gostem de saber um pouco mais sobre solidariedade: um atributo fundamental para a sobrevivência em regiões inóspitas. Ocorreu-me, então, relatar um fato que sobrevive na minha memória. Certa noite, o bispo da região foi à minha casa pedindo apoio de transporte para uma freira que acabara de sofrer um enfarte. De imediato, mandei buscar a ambulância, liguei para a Base Aérea de Campo Grande, por rádio, e reservei uma vaga de emergência no voo regular que chegava às 21h, procedente de Corumbá, rumo a São Paulo. Pois bem, ao amanhecer, o chefe da Igreja Católica da região voltou para agradecer e dar a notícia – recebida por rádio – sobre o sucesso da cirurgia, na madrugada, tão logo ela chegou ao hospital cujo nome não me recordo. Em São Paulo, outra solidariedade da própria Igreja que a esperava no aeroporto. Sem dúvida, as pessoas envolvidas naquela operação humanitária sabem o que é solidariedade, e como ela é necessária e preciosa em locais remotos. Hoje, os mais distantes rincões, do Brasil e mundo afora, já dispõem de redes de telefonia celular e estradas asfaltadas. Mas, esses são apenas melhores meios para o exercício do que é talvez a maior manifestação de amor ao próximo: a solidariedade! E, assim, cumpri meu “serviço nacional relevante”, por lei, durante dois anos, com muita saudade dos bons tempos passados.