(Imagem ilustrativa/ Gerada por IA) E aqui chegamos para mais um Dia Internacional da Mulher, mergulhados em verdadeira avalanche de informações: guerras, moda autoral, os favoritos ao Oscar, as intrigas de reality shows. Mas, duvidamos que o algoritmo tenha mostrado os nomes de Esperança Garcia, Myrthes Gomes de Campos ou Celina Guimarães Viana. Esperança, mulher negra e escrava no Piauí, do século 18, denunciou, em uma carta ao governador, maus-tratos e abusos sofridos. O documento, encontrado em 1979, é considerado a primeira petição de direitos humanos no País. Em 2022, o Conselho Federal da OAB reconheceu, oficialmente, Esperança Garcia como a primeira advogada brasileira. Já Myrthes é a pioneira no exercício da advocacia, em 1906. E Celina, além de ser, oficialmente, a primeira mulher a votar (1927), também atuou como árbitra de futebol. Uma sociedade sem memória garante que as "coisas fiquem como elas estão". Contudo, pela coragem de tantas Esperanças, Myrthes e Celinas, na maioria das vezes pagando um alto preço, vivenciamos direitos fundamentais, como estudar, trabalhar, votar e nos expressar. Neste “nosso dia"” em “nosso mês”, cabe refletir que ser mulher não é sinônimo de ser mãe, de ser casada; de ter uma carreira compatível com “deveres” em casa, de ter sempre uma palavra amiga para os outros (enquanto nos esfacelamos por dentro); de ter rosto e corpo (des)harmonizados pelo padrão vigente das redes sociais. Ser mulher não é estar disponível o tempo todo. Ser mulher é negar chavões como “sempre foi assim”. Ser mulher requer ousadia para sair da prisão mental, cultural, estrutural: é quase como tirar o fio da tomada e caminhar por conta própria. Dói, sabemos bem. Ser mulher é fazer, a cada dia, com seus próprios desafios, "nosso dia", onde não há superação pequena ou grandiosa, apenas vitória por seguirmos adiante. Embora a sociedade ainda exerça pressão com cobranças ancestrais, ser mulher não é sinônimo de ser mãe. Romper com esse “destino obrigatório” é um ato de coragem que prioriza o autoconhecimento e o desejo genuíno em vez das expectativas alheias. Viver plenamente é, acima de tudo, ter o poder de escolher o próprio caminho. Só resta respeitar essa escolha. *Daniella Berkowitz. Vice-presidente/OAB Santos *Jackeline Pereira. Secretária-geral adjunta/OAB Santos