[[legacy_image_332812]] Santos está a menos de uma geração de meio milênio. Por nossas características insulares de disposição ao mundo, nos destacamos do continente como microcivilização. Assim como as cidades-estado gregas ou toscanas da Renascença, moldamos um jeito próprio destacado do continente de ser, uma nossa especificidade, um traço de caráter distinto. Dentro de nossa peculiaridade, uma sobressai: o acolhimento generoso, com um cosmopolitismo congênito de atracadouro e cais de partidas, o abraço incondicional aos quatro cantos e porta ao novo mundo. Santos sempre será acolhedora de tudo que se cria e de gentes que aqui chegam. Bairristas por defesa de nossa característica miscigenadora, nosso pendor estrangeiro, nunca provinciana. Mais de um gênio literário universal notou nossa similaridade com outros portos mágicos: Trieste, Xangai, Tânger, Barcelona. Enclaves entre o infinito e a sobreposição da História terra adentro que os envolve. Sempre me causou estranheza não tivéssemos uma casa de cultura que fosse essa nossa intersecção que ofertamos do sentimento atlântico do mundo ao Brasil. A “santisticidade” é um conceito amplo demais para reduzir-se à tacanhez da mediocridade, afinal aqui nasceu Alexandre de Gusmão, que nos deu metade da pátria anulando Tordesilhas. Emociona-me que, chegando aos 60 anos, o poeta seja ouvido por um prefeito e um missionário da Cultura endossado em sua ideias. Existe um simbolismo nisso: de Atenas a Florença, foi da união entre poetas e governantes que se forjaram as culturas prósperas. Depois de conviver por décadas na Casa das Rosas, na Casa Guilherme de Almeida e Mário de Andrade na pauliceia, disponho do meu único mister para a curadoria de uma casa que faça jus às nossas tradições e vanguardas trazendo o mundo para Santos e levando Santos de volta ao mundo antropofagicamente, segundo Oswald. Do casamento do local com o global, pensar o planeta, inserir jovens sedentos de arte, ministrando cursos através da arte contra a barbárie, repito: a santisticidade não é uma excludência, pode ser tão fraterna e poderosa como a ‘baianidade’. Tinha que ser naquele cadinho de lutas da 7 Setembro, tinha que ser no elo entre Porto, Paquetá, Mercado e morros. Nunca um museu; um centro de comunhão pela música, pelas aulas de restauro, pelo cultivo da gastronomia, pelos saraus, pela história oral do nosso passado índio, africano, madeirense, nordestino. Tenho fé que a arte salva! Escrevo esse artigo dialeticamente ‘conversando’ com o texto magnífico do humanista Alcindo Gonçalves que tanto admiro: fazendo coro com reconhecimento da grandeza do meu amigo Mário Flávio, que encarna com doce elegância cosmopolita o espírito que deve ser impresso no solar das artes de Santos. Alcindo fez-me refletir sobre possíveis equívocos de interpretação aos nossos propósitos. Alcindo, especialmente pioneiro, visionário dos destinos do casarão. Casarão que frequentei em tempos do meu amigo antiquário Rafael Moraes. Meu compromisso é com a cidade e com o prefeito de sensibilidade rara para as coisas do espírito. Só espero sinceramente que o projeto de uso cultural seja perpetuado como razão de Estado e mantido para florescer nos nossos 500 anos que chegam. A Casa da Cultura não é de Santos, é presente de Santos para a brasilidade e a partir de Santos, sem exagero, para o mundo que nos visita e leva junto com encanto.