(Luigi Bongiovanni/ArquivoAT) Algo de bom a idade me trouxe (além da risível aposentadoria do INSS e uma coluna lombar fora de prumo, entre outros itens do pacote) e pensei em fazer uso desse ‘bônus’ etário na eleição que agora caminha para o segundo turno. Pensei em não me dar ao trabalho de ir até o colégio de sempre, com a esperança de sempre em ver algo mudar, e na urna quase mágica de tão rapidinha confirmar os escolhidos. Entretanto, consciência é algo que ou a gente tem ou, caso contrário, vai passando à margem da vida, em tudo que ela exige de prontidão e responsabilidade. Documento com foto na mão, dever cumprido na urna, voltei para casa a pé, com tempo para pensar no compromisso ao qual não me furtei em tantos anos dando votos a candidatos que julguei merecedores da minha voz e da minha esperança de um país melhor. No caso, de uma cidade melhor. E só por isso, por estar entre milhares que dão crédito a um nome na urna, merecemos consideração e respeito. Das promessas, nenhuma é novidade. Insistem no discurso que tornarão melhor a vida do cidadão, que a saúde é prioridade e a educação é ponto de honra. Que terão dinheiro para novas moradias, para honrar o saneamento básico e ainda, com certeza, tirar das ruas a violência que nos inibe e aprisiona em casa. A lista é extensa e de tão velha já está bem rasurada. Nunca fiz promessas aos santos porque sempre tive medo de não cumpri-las e ficar mal na foto do céu, perder o crédito com eles e não ganhar uma fatia azul do firmamento na hora do ‘vamos ver’. Não temos o poder dos santos para tirar da jogada os que prometem e nos decepcionam, mas o voto ainda é a ferramenta que pode lapidar nossas escolhas, é o testemunho de quem ainda não desistiu. Como eu, nos meus 73 anos, ou como tantos que vencem obstáculos maiores do que a idade. O motorista do Uber que me conduziu na ida ao colégio para votar comentava dos momentos de emoção vividos ao transportar eleitores naquele dia. Falou do esforço de uma mãe, levando o filho autista para votar, e da alegria do jovem vencendo a dificuldade da condição especial para exercer sua cidadania. E de outro passageiro, com deficiência visual, ele também com vontade maior que o obstáculo de não enxergar. Brasileiros que não desistiram e contam com seus eleitos para o básico que lhes é de direito: mais dignidade e o lugar de honra como cidadão. Os dados estão rolando no tabuleiro já montado e o resultado nos encontrará no lugar ocupado desde sempre: no esperançar de tempos melhores, de um mundo mais justo, mais fiel à promessa de tantos. Neste lugar que ocupamos, cidadãos comuns com título de eleitor na mão, sem pleitear cargos, verbas para isso ou para aquilo ou quaisquer simpatias extras, esperamos o óbvio, o prometido. Como na música dos Titãs, a gente não quer só comida. Isso, com disciplina e cinto apertado, muitos de nós conseguem garantir. Estão faltando diversão e arte, para dançar e colorir como crianças que, finalmente, ganharam o presente tão esperado e podem sair no passo e no traço. *Vera Leon. Jornalista