[[legacy_image_284896]] Na farmácia, ao pagar o medicamento, o mocinho, com voz tímida e vacilante, pergunta-me se pode ficar devendo dez centavos. “Acabei de abrir o caixa e não tenho agora. Podemos descontar na próxima compra?” Na faixa viva, o meu braço estendido pedindo para atravessar é ignorado pelo motorista que avança, perigosamente, vocifera ao passar por mim e para, alguns metros adiante, no sinal vermelho que detém a sua pressa. Na porta do prédio, o cachorro deixa duas grandes amostras do quanto é saudável a sua alimentação. E o dono, nada constrangido com o “pacote” do seu cachorro, segue tranquilo porque àquela hora da manhã ninguém deve estar olhando. Na loja de eletrodomésticos, o produto com defeito não tem similar para troca e peço a devolução do dinheiro. Espero por mais de uma hora o reembolso, mas não posso receber, porque não há dinheiro no caixa. “Pode passar outra hora? Não dá pra tirar do meu bolso pra dar à senhora”. Nas calçadas onde tantos se acomodam para mais um chope, os saquinhos de lixo se amontoam ao pé das árvores, à espera da coleta. Como assim? É sábado à noite e a segunda-feira ainda demora a chegar! Cenas do cotidiano no meu pequeno mundo, nesta cidade onde nasci e que, certamente, espelha um (mau) jeito de ser brasileiro. A moedinha que nunca se tem como troco nos vários comércios; a faixa viva que, com mais de dez anos da sua implantação, ainda precisa ser “desenhada” para muitos motoristas; as calçadas como tapete de luxo (alguém vai limpar) para o lixo que não é de ninguém; o desrespeito ao consumidor que precisa se “adequar” às normas da casa, porque o direito dele é uma palavra vazia. Aprendi com o pai e com a mãe que havia um território de linhas invisíveis onde eu poderia me movimentar sem ofender o espaço de ninguém e sem transpor os limites. Como eles foram à escola só por um tiquinho de tempo, o suficiente para conseguir assinar o nome, não foi na escola que aprenderam a educar os quatro filhos. Era um saber intuitivo, que fluía naturalmente do olhar, da voz determinada, da palavra dada. Com esse saber me vesti e abriguei os meus, caminhei pelos tempos e pelos lugares, prestei atenção às novas lições e ainda hoje me ponho de jeito a lapidar o que há de bruto no tesouro que herdei. A educação é a pedra mais preciosa desse capital, mas desconfio ser um artigo em falta em várias camadas sociais, e é a carência dessa matéria-prima que tem desfigurado pessoas, corrompido sociedades, aviltado valores, ameaçado a vida. A falta de princípios ergue véus que tornam o outro invisível e dá-me medo viver onde a decência é questionável e a ética, de conveniência. O pai e a mãe nunca ouviram falar em Sócrates e mesmo eu só fui apresentada a ele nos anos do curso clássico, contagiada pelos ensinamentos da professora Marialva Carrer Cruz, no Colégio Dona Luíza Macuco. Todo esse meu amontoado de palavras, a querer combinar respeito, caráter, educação, ganha a síntese socrática quando o filósofo nos pega pelos pulsos e diz, olho no olho: “Quem sou eu quando a última porta se fecha atrás de mim?” Se não me envergonho do que deixei para trás, sou um ser de bem. A mãe e o pai podem se orgulhar de mim.