(FreePik) Você pode ter trabalhado vinte ou trinta anos. Pode ter criado filhos, cuidado dos pais, estudado à noite, enfrentado desemprego, mudado de profissão, recomeçado, liderado pessoas e resolvido problemas que nunca apareceram na descrição do seu cargo. Então surge uma nova oportunidade e alguém diz: “Fale um pouco sobre você.” De repente, uma vida inteira precisa caber em poucos minutos. Para quem procura o primeiro emprego, o desafio é outro: como mostrar valor quando ainda não houve tempo para construir experiência? Para quem ficou anos fora do mercado cuidando da família, como explicar que aquele período também exigiu organização, responsabilidade, capacidade de adaptação e tomada de decisão? E há quem chegue aos 50 ou 60 anos carregando décadas de experiência e descubra que precisa provar novamente que continua capaz de aprender, produzir e contribuir. É por isso que se apresentar profissionalmente é muito mais difícil do que parece. O currículo registra cargos, empresas, cursos e datas. Mas não registra tudo aquilo que a vida ensinou. Não mostra quantas vezes alguém precisou resolver um problema sem ter todas as respostas. Não mostra a maturidade adquirida depois de uma demissão, a coragem de recomeçar, a habilidade de ouvir pessoas diferentes ou a experiência de tomar decisões quando havia muito em jogo. Talvez o grande desafio esteja justamente aí: transformar trajetória em significado. Em vez de tentar contar tudo o que já fizemos, talvez seja mais importante conseguir responder: o que tudo isso me ensinou a fazer? Para um jovem, pode ser aprender rápido. Para uma mulher que retorna ao mercado, pode ser reorganizar a própria vida e recomeçar. Para um pequeno empreendedor, pode ser conhecer profundamente seus clientes. Para alguém experiente, pode ser perceber riscos antes que eles se transformem em problemas. Nenhuma dessas histórias cabe perfeitamente em um currículo. Talvez por isso tantas pessoas competentes tenham dificuldade de falar sobre si. Foram ensinadas a trabalhar, entregar e cumprir responsabilidades, mas nem sempre aprenderam a reconhecer o próprio valor. E reconhecer valor não é arrogância. É compreender o que a nossa história nos tornou capazes de oferecer. No fim, uma oportunidade profissional não pergunta apenas onde estivemos. Pergunta também: Depois de tudo o que você viveu e aprendeu, o que pode fazer diferença daqui para frente? *Alessandra Franco. Secretária de Administração da Câmara Municipal de Santos, advogada, pedagoga, mestra em Políticas Públicas e integrante do Programa Conselheira 101