(Unsplash) A Medicina brasileira atravessa uma transformação silenciosa. Ao mesmo tempo em que formamos um número recorde de médicos, enfrentamos o desafio crescente de preservar a autonomia profissional, a qualidade do cuidado e a própria sustentabilidade da prática médica. Em um sistema pressionado por escala e produtividade, o cooperativismo resgata uma premissa poderosa: quando médicos se unem em torno de um propósito comum, o resultado deixa de ser uma simples soma e ganha força coletiva. Esta é a essência do modelo — profissionais que, em vez de seguirem trajetórias isoladas, escolhem construir uma organização sustentada por regras claras e objetivos compartilhados. Neste formato, o médico não enfrenta o mercado sozinho. Ele passa a integrar uma estrutura que o representa e fortalece, sem que precise abrir mão de sua identidade profissional. Os reflexos práticos dessa escolha são nítidos: Segurança profissional: A atuação conjunta organiza a rede assistencial e estabelece protocolos que reduzem fragilidades difíceis de administrar individualmente. Remuneração justa: O alinhamento de interesses e a redução de intermediários permitem que o trabalho médico seja valorizado com transparência. Confiança institucional: Um pilar erguido sobre regras claras, fiscalização e a participação ativa de cada cooperado. No entanto, a finalidade maior do cooperativismo não é apenas a proteção do médico, mas a excelência do cuidado oferecido ao paciente. A integração entre os profissionais torna o atendimento mais seguro, contínuo e resolutivo. O modelo preserva a autonomia técnica em favor do paciente, otimizando serviços e ampliando a eficácia assistencial. Diante de dezenas de milhares de novos médicos chegando ao mercado anualmente, o desafio se amplia. É preciso acolher os jovens talentos e estimular sua qualificação em um ambiente ético, sem jamais perder o respeito à experiência dos veteranos. Não se trata de substituir gerações, mas de integrá-las. Naturalmente, esse modelo exige responsabilidade. Sob a regulação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as cooperativas demandam governança e gestão profissionalizada. Modernizar, portanto, não significa abandonar princípios, mas usar a tecnologia e novos instrumentos de gestão para proteger a essência do cuidado humano. Não é por acaso que Santos foi o berço da primeira Unimed, semente do que hoje é a maior rede de cooperativas médicas do mundo. A história nos mostra que médicos organizados em torno de valores comuns constroem modelos duradouros. No fim, quando dizemos que ‘1+1 é exponencial’, estamos falando de algo simples: o cooperativismo não apenas soma médicos – ele multiplica o cuidado. *Marcello Colombo Barboza. Professor universitário, doutor e livre-docente em Oftalmologia, MBA pela FGV em gestão de Saúde e diretor clínico do Hospital Visão Laser