(Reprodução) Alguns nomes e sobrenomes foram motivo de piadas ou campanhas publicitárias jocosas que se mantem no imaginário popular até hoje. É o caso do Bráulio. O anúncio mostrava um flagra de adultério. A esposa e o amante (o Bráulio) estavam no quarto quando o marido chegava inesperadamente. Para não ser pego, Braulio precisava pular do primeiro andar e acaba ficando só de cueca Zorba no meio da rua, enquanto os vizinhos gritavam da janela: “Olha o Bráulio!”. A campanha se tornou um fenômeno nos anos 90 e o bordão entrou para o folclore brasileiro – embora tenha levado alguns homônimos reais a processarem a agência publicitária. Aproveitando o vácuo dessa fama do Braulio, o Ministério da Saúde lançou uma campanha para incentivar o uso de preservativo no Carnaval. Bráulio virou um pênis estilizado e humanizado que “pedia” para ser protegido: “Não leve o Bráulio para passear sem camisinha”. A partir dali, o nome virou sinônimo de órgão sexual, eclipsando o respeitável sobrenome de origem portuguesa. Cuidado com o ‘Ricardão’ é outro que atravessa gerações. A sua origem mais aceita remete a uma série de comerciais da Bombril. O ‘Garoto Bombril’ personificava o marido distraído ou excessivamente confiante que não percebia a presença de um homem forte, alto e bonitão escondido – o tal Ricardo, o amante. “Se liga com o Ricardão. Avise antes de chegar em casa para dar tempo dele ir embora”, era a piadinha da vez. O fenômeno revela uma faceta curiosa da nossa antropologia urbana: no Brasil, o nome próprio é um bem de posse precária. Basta um comercial de trinta segundos ou uma rima bem achada no balcão do boteco para que a identidade individual seja sequestrada pelo folclore coletivo. Nessas horas, o sujeito deixa de ser o ‘Doutor Abreu’ ou o ‘Senhor Ricardo’ para virar um conceito, uma piada, um patrimônio imaterial do deboche alheio. É o batismo da rua, muito mais forte que o da igreja ou o do cartório, que condena o cidadão a carregar, para além do RG, o peso de uma história que ele nunca escreveu. Bráulio, Ricardão ou Abreu: entre os amantes e o caloteiro, o humor brasileiro se faz com exageros. A Patricinha que o diga. *Marcio Aurelio Soares. Médico