(Alexsander Ferraz/ Acervo AT) Saudades do romantismo ruidoso do velho Gonzaga. Do comércio tradicional, das vitrines, do movimento das calçadas, dos carros e dos transportes públicos, das pessoas que entravam e saíam das lojas, que se cruzavam e paravam para uma conversa. E, por entre tudo isso, o aroma inconfundível da maresia. Desde a infância até a idade adulta, nunca pensei naquele bairro como simples paisagem. Era o lugar onde o ritmo da vida pulsava de modo diferente. O Gonzaga fez parte do meu mundo primeiro. Ficou ligado à infância pelas referências que pareciam pertencer à própria ordem das coisas: o comércio, os cafés, os edifícios, os jardins da orla, os rostos conhecidos, a circulação incessante. Eu conhecia o bairro caminhando. Sabia onde estava, reconhecia o que via e seguia adiante. Esse exercício haveria de acompanhar-me durante tantos anos. A paisagem humana tinha uma força particular. Comerciantes, famílias, crianças, jovens, idosos, trabalhadores ocupavam as calçadas, enquanto automóveis e ônibus atravessavam o bairro num fluxo contínuo. O Gonzaga tinha vozes, motores, portas que se abriam, travões, buzinas, conversas começadas ao acaso, ruídos que lhe davam personalidade. Foi esse Gonzaga que conheci e que ficou ligado a diferentes idades da minha vida. Não o recordo como uma fotografia, mas como um filme sonoro e colorido. O tempo modificou Santos e levou consigo muito daquele Gonzaga. Em determinados momentos, quando estou deitado e com dificuldade para adormecer, faço ioga mental, coordeno a minha respiração e penso nas caminhadas pelas suas ruas, no caldo de cana, nas estreias cinematográficas, no chopinho com a namorada de então, nas conversas com os amigos. Daí a pouco, quando a saudade bate à porta, encontra-me já a dormir. Então, nesse instante em que a vigília se dissolve, é ela que vaga pelo bairro, percorrendo as ruas que conheci, misturando-se à maresia e ao mormaço, indo ao encontro das saudades de outros santistas, desejosos como eu de voltar a respirar aqueles ares! *Rui Calisto. Escritor e investigador