Vamos para um consultório médico. Nele, um escritor francês explica para um psiquiatra um impasse do qual era impossível sair. Um desejo indizível e envergonhado: o de se fazer desaparecer. Emmanuel Carrère narra de forma corajosa, no livro Ioga, uma sequência de acontecimentos que tinham virado sua vida do avesso e, nesse diálogo, conta que o médico, com tranquilidade surpreendente, respondeu assim ao seu impasse profundo: “Você tem razão. O suicídio não é muito bem-visto mas, às vezes, é a melhor opção”. Até que a frase se completa, com o oposto tão óbvio quanto extraordinário, depois de alguns segundos de espanto e de um silêncio incômodo entre o escritor e o psiquiatra: “Ou, então, você pode viver”, ele diz. Carrère narra o curto-circuito psíquico que ouvir essa frase provocou em si mesmo no auge da sua vontade envergonhada de morrer. Eu me vi envolvida em uma euforia tão indizível quanto o desejo dele quando li esses versos. Mas voltando pra essas aspas óbvias e extraordinárias do psiquiatra do francês que trago pra cá: viver, então, é uma possibilidade. Uma escolha. Para alguns, ela se anula de certa forma quando a saúde mental ou física se esvai. Mas, no abrir das nossas cortinas pessoais, viver, então, é opção. Na mesma esteira dessa opção de experimentar a passagem dos anos, eu tenho muito prazer em assistir a como as pessoas escolhem envelhecer. É claro que em um país cruelmente desigual como o nosso, a decisão é também um privilégio. Assim como a vida é sobrevivência pra muitos aqui e sabemos disso. Mas quando se tem os meios e recursos para dançar essa oração do tempo ditando nossos ritmos e destinos, vou defender uma receita na qual venho criando intimidade e que enxergo nos meus pais com clareza: a de nunca se fechar para aquilo que não se conhece. Escuto de ambos as coisas novas que aprenderam com paixão e entusiasmo. Até hoje. E venho absorvendo com eles que a idade não impede que a gente continue flertando com os inícios. Aos sábados, há um ano, meu pai passou a remar nas charmosas canoas havaianas, em Santos, com um grupo de nove pessoas pelas manhãs. Ele, 72 anos. O restante na faixa dos 40 e 50 anos. Meu jornalista exemplo começou a falar da prática com esse grupo específico com muita riqueza de detalhes sobre cada um e com o brilho nos olhos daquele entusiasmo que mencionei. Vocês já devem imaginar: eu fiquei curiosa. E aí que mais uma lacuna geracional entrou pra essa prosa tão bonita, diversa e cheia de identificação. Eu, aos 26, passei a fazer parte do grupo de remadores amigos também. Acontece que pra além desse encontro do remo com o mar nas manhãs de sábado, e dessa mistura rara, tem o café depois, e os aniversários, e as resenhas infinitas e uma vontade verdadeira de se cercar nessa canoa de gente que ama em comum estar junto. Percebe que aos setenta e tantos, meu pai encontrou a qualidade de um vínculo coletivo bastante singular? E é bonito observar, através dessa lente, que a vida não para de nos costurar opções quando a gente escolhe não se fechar. E assim, tenho sentido que no tratado de valores pra atravessar os anos com qualidade a receita é ligeira: entender que os vínculos, o conhecimento e as novas rotas, são possibilidades inesgotáveis.