(Divulgação ) Nas páginas amareladas do tempo, Monteiro Lobato surge como uma de suas próprias criações: fascinante, teimoso e tingido por nuances. O homem que deu voz a uma boneca irreverente pulsava com o desejo febril de ver o Brasil modernizar-se, sacudir a poeira do atraso e abraçar a produtividade. Sua caneta, nesse ímpeto, brilhou intensamente, mas também se deixou tingir pelas sombras preconceituosas de sua época. Não há como contornar: o mestre que desvendou as portas mágicas do Sítio do Pica-Pau Amarelo guardava espinhos na gaveta. Em cartas e romances, rendeu-se ao “racismo científico”, uma teoria enganosa que tentava mensurar o valor humano pela tonalidade da pele. Em sua ânsia por um Brasil avançado, abraçou a eugenia, a falácia de que seria possível aperfeiçoar a genética de um povo para impulsionar seu progresso. Assim, flertou com ecos sombrios, publicando obras onde a “solução” para o futuro passava por ideias de esterilização racial e deixando escapar, em sua linguagem, o preconceito velado que associava o “embranquecer” à beleza e a um futuro promissor. Contudo, confinar Lobato apenas às sombras de seus equívocos seria apagar uma parte essencial de sua trajetória: sua mente era um rio caudaloso, não uma represa estagnada. Em Jeca Tatu, vislumbramos uma transformação em seu olhar. Inicialmente, o personagem era moldado pelo determinismo: o caipira era fadado à preguiça por natureza. Mais tarde, Lobato repensou a questão. O Jeca não era inferior; estava doente, esquecido. Remédio, saneamento e educação, sim, eram capazes de converter o sofrimento em trabalho e em esperança. O escritor percebeu, então, que o entrave nacional não residia no sangue, mas sim na negligência para com as pessoas. Ler Lobato hoje exige maturidade histórica: encarar o gênio sem apagar o homem de seu tempo. Ele errou ao diagnosticar as mazelas do país e ao se nutrir de falsas ciências. Mas também soube reescrever suas próprias certezas, redirecionando seu olhar para a responsabilidade social. O Brasil real, em sua essência, não se curvou a teorias de gabinete; floresceu na diversidade. Nossa miscigenação é uma força criadora, e a identidade se tece na contribuição de talentos negros que moldaram nossa cultura, nossos ritmos e nosso pensar. Ela pulsa na literatura de Machado de Assis e Cruz e Sousa, reverbera nos sons de Pixinguinha e Cartola, e ressoa na batuta internacional de Paulinho da Costa. Vibra nos gramados de Pelé, ecoa nos passos históricos de Adhemar Ferreira da Silva e João do Pulo, brilha nas quadras com as ginastas campeãs e transborda na poesia das ruas. Lobato buscou decifrar o Brasil; ao fim, foi a própria diversidade – bela e inegável – que o consagrou. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental