(FreePik) Os anos vêm e vão: Mais velha eu fico. Mas se olho as flores, não Penso mais nisso. (Sei Shônagon) Ao caixote cheio de terra chamo jardim. E vicejam caules, folhas, pétalas... Ilusório, apontam os descrentes do poder da palavra, mas estou em mim. Natureza, música, livros e silêncio bastam. O pensamento desata-se. Alguém sussurra, Talvez ela queira ser uma deusa. E com rancor, acresce: Medusa era uma divindade e um monstro feminino, que transformava quem a olhasse em pedra. Tivesse eu esse dom converteria tudo em flor, homenageando Sei Shônagon. Seu poema traz as preocupações da velhice, mas ao olhar as flores, a inquietação se esvanece. Resta um sentimento de alívio e calma à passagem do tempo. Dama da corte, Shônagon escreveu em Quioto, século 10, O Livro do Travesseiro, com mais de trezentos textos curtos, lidos em sequência ou ao acaso. A obra, um inventário da cultura do Japão feudal, confirma: a beleza da estética japonesa não se encontra só no que está aparente ou visível. Emana também do que se encontra escondido ou até mesmo perdido nas entrelinhas, incentivando o leitor a pensar de outra maneira a mensagem contida. A beleza não está ligada ao uso de palavras precisas, que traduzam exatamente o sentimento do autor e, sim, na capacidade da obra sugerir emoções, ideias ou pensamentos, a partir do emprego limitado de vocábulos. O tamanho reduzido dos poemas japoneses demonstra a valorização desse ideal estético da sugestão. O pouco, o ínfimo, a essência e o vazio ‘falam’ em silêncio e sugerem, dando ao leitor a liberdade de evocar e recriar. A passagem do tempo traz o envelhecimento e a separação de alguns amigos ou pessoas ligadas à família. Shônagon passa um tempo fora do palácio. Apenas Norimitsu sabe onde sua irmã está e lhe pergunta: Se o funcionário do palácio insistir em saber, posso contar-lhe a verdade? Sei Shônagon envia-lhe um pouco de alga enrolada em um pedaço de papel. Norimitsu não entende a mensagem. Shônagon, desgostosa com Narimitsu, escreve-lhe o poema: A pescadora de pérolas/Deu-te um pedaço de alga/Justamente para que/Não digas a ninguém/Onde ela mora. Narimitsu não gostava de poemas e não lê a missiva. Shônagon envia-lhe outro poema: Quando os Morros/Dois Irmãos desabarem/Já não se reconhecerá/Correndo entre eles/O rio Yoshino. E nunca se reconciliaram. Os dois viveram separados, ela na corte e ele, onde?... Nascemos para amar e ser amados. Um lar é a casa onde gostamos de estar, onde nos sentimos aconchegados. E repito: Ah, se tivesse o poder de transformar, tudo seria flor. *Regina Alonso. Escritora e membro das Academias Santista de Letras Casa de Martins Fontes e Vicentina de Letras, Artes e Ofícios