O que São Francisco de Assis tem a nos ensinar depois de 800 anos? Talvez, antes de tudo, que a vida não se resume a conservar aquilo que somos. Há momentos em que precisamos permitir que algumas coisas morram em nós para que algo novo possa nascer. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Francisco morreu muitas vezes antes de morrer fisicamente: morreu para a riqueza, para o prestígio, para os projetos pessoais, para a necessidade de reconhecimento, para o controle e, até mesmo, para determinadas imagens que havia construído sobre a própria vocação. Sua vida nos recorda que nem toda perda é o fim; algumas perdas são passagens. Francisco também nos ensina a simplicidade. Em um mundo que nos convence de que precisamos possuir mais, aparecer mais, produzir mais e controlar mais, ele escolheu o caminho do despojamento. Ele nos ensina ainda que o Evangelho precisa tornar-se vida concreta. São Francisco não quis apenas falar de Jesus, quis conformar sua existência a Ele. Por isso, sua espiritualidade não pode ser reduzida a uma coleção de frases bonitas sobre paz, natureza ou simplicidade. Há em São Francisco uma radicalidade: seguir Cristo transforma a maneira como nos relacionamos com o dinheiro, com os pobres, com os irmãos, com a criação, com o poder e conosco mesmos. Francisco nos ensina também a fraternidade e talvez aqui esteja uma das suas maiores atualidades. Ele descobriu que não era possível viver o Evangelho sozinho. Mesmo desejando a solidão e a contemplação, precisou aprender a viver com irmãos concretos, diferentes, limitados e nem sempre correspondentes ao ideal que havia imaginado. São Francisco nos ensina ainda a reconciliar-nos com a nossa própria fragilidade. Ele não chegou ao fim da vida como um homem que havia conseguido realizar perfeitamente tudo o que sonhara. Chegou marcado pelas feridas, pelas limitações, pelas doenças, pelas incompreensões e pelas perdas. E, finalmente, São Francisco nos ensina a morrer. Não apenas a morte física, que um dia chegará para todos nós, mas essas pequenas mortes que fazem parte de toda existência. Morrer para o ego, para o orgulho, para a necessidade de ter razão, para a ilusão de controlar tudo, para aquilo que já não somos. Oito séculos depois, São Francisco continua nos convidando a uma vida mais simples, mais fraterna, mais livre e mais evangélica. Continua nos lembrando de que não precisamos preservar para sempre aquilo que fomos. A vida também é passagem e algumas coisas precisam morrer para que outras possam nascer. São Francisco de Assis morreu há 800 anos, mas seu modo de viver continua perguntando a cada geração: o que em nós precisa morrer para que a vida possa, finalmente, nascer?