(Raul Baretta/SFC) Pode comemorar, torcedor! O Santos está de volta à Série A do Brasileirão! Sim, eu ainda estava receoso e achei melhor esperar a confirmação matemática antes de festejar o acesso, diferente de outros colegas mais eufóricos - a própria comissão técnica celebrou a vaga na elite nacional após a vitória contra o Vila Nova, há mais de uma semana. O risco de não subir ainda existia com uma combinação improvável de resultados. E depois das últimas temporadas do Santos, quando tudo parecia conspirar para dar errado, é natural virar um pessimista crônico. Mas o fato é que o retorno à primeira divisão foi selado no Couto Pereira, com um gol antológico de Otero, dissipando qualquer ameaça de o imponderável acontecer nas rodadas finais. A Série B provocou sentimentos como negacionismo, preocupação, estresse e ansiedade no torcedor alvinegro. Ao longo da competição, faltou ao Santos apresentar variações táticas e mesclar experiência com juventude, pragmatismo com ousadia. Fábio Carille optou por promover poucos meninos da base ao elenco profissional durante o ano - as exceções foram o zagueiro Jair e os laterais JP Chermont e Souza. Com vários atletas acima dos 30 anos no time titular, o Santos foi superado em algumas partidas por adversários que apresentavam maior intensidade e até mesmo maior motivação em campo. Apesar do futebol burocrático, previsível e sem brilho, o torcedor santista não abandonou a equipe em nenhum momento sequer: lotou a Vila Belmiro na maioria dos jogos e marcou presença em diferentes cidades pelo País para apoiar os atletas. Agora, com a vaga na elite garantida, há motivos, sim, para comemorar - outros grandes clubes do País patinaram na Série B e não conquistaram o acesso no ano seguinte à queda. Vasco e Cruzeiro são dois exemplos. No entanto, o Santos aproveitou muito mal a temporada para de fato se reorganizar, repetindo velhos hábitos ao investir alto em jogadores caros e improdutivos, como Patrick, Billy Arce e Yusupha Njie. O presidente Marcelo Teixeira não gostou de ser criticado por parte da torcida após a vitória diante do Vila Nova e retribuiu os questionamentos com gestos e ofensas. Nos últimos dias, os contratos de vários atletas vazaram na imprensa, muitos deles com cláusulas automáticas de renovação. Teixeira precisa entender que o mundo do futebol não é o mesmo de vinte anos atrás, quando as redes sociais inexistiam. Atualmente, dirigentes e mandatários são fiscalizados e cobrados em tempo real - ouvir o torcedor e aprender com os erros, portanto, é essencial para criar uma atmosfera favorável ao clube. Sim, a atual gestão também acertou em algumas contratações. Gil, João Schmidt, Diego Pituca, Escobar, Guilherme, Giuliano e Otero, por exemplo, acrescentaram experiência e qualidade ao elenco. Será uma pena se o zagueiro Gil, 37, seguir irredutível com a ideia de aposentadoria. Com acesso carimbado à elite do Brasileirão, o Santos precisará pensar agora na montagem do elenco para 2025. A começar pela definição do treinador. Por conta de uma relação para lá de desgastada com a torcida, não há mais clima para a permanência de Fábio Carille - o ideal seria escolher um nome com perfil oposto. Quem não gostaria, por exemplo, de ver um técnico inquieto à beira do campo, chutando copinho d’água e surtando a cada gol perdido ou jogada desperdiçada? Representaria muito bem o torcedor. O futuro do Santos dependerá também do poder de investimento do clube para a próxima temporada. Será que a camisa 10, aposentada provisoriamente durante a disputa da segunda divisão, poderá ser utilizada pelo maior jogador brasileiro da última década? Sonhar não custa nada... Nem tudo pode ser explicado no futebol, mas algo é inegável: não devemos nunca duvidar do Santos - aquela camisa histórica, reconhecida mundialmente por seus feitos, sempre dá um jeitinho de se reerguer mesmo sendo tão maltratada por seus dirigentes ao longo do tempo. O Peixe retorna para o lugar de onde jamais deveria ter saído. *Guilherme Rodrigues Simões. Jornalista esportivo