(FreePik) Somos cheios de contradições. Até aí, novidade para ninguém. E quando as contradições colocam em dúvida discursos ideológicos? Algumas chegam a nos causar risos; outras, nos fazem sentirmos ofendidos em nossa inteligência. Caro leitor, deixe de lado por um tempo – apenas o suficiente para terminar a leitura dessa crônica – a disputa entre virtudes de direita e de esquerda. Convido-o para se debruçar sobre os argumentos. Nem é preciso concordar comigo (aliás, nunca foi). Sugiro apenas ser honesto consigo mesmo. A agenda woke espalhou por todo o planeta a bandeira do “lugar de fala”. Uma forma sutil (será?) de eliminar pensamentos divergentes do discurso ativista. Isso mesmo, castração do pensamento. Se, por me faltar lugar de fala, não posso expor opinião sobre assuntos que envolvem grupos aos quais não pertenço, por que deveria continuar a refletir sobre tais temas? Por essa “ideia equivocada” (mais uma vez, o eufemismo me salvando de ser virulento), deveria concluir que não posso nem sequer apresentar sugestões para programas de combate à fome, pois jamais fui dormir com a barriga roncando. Nem apresentar ideias sobre campanhas de vacinação voltadas à população indígena, pois sou descendente de europeus (o que alguns querem fazer crer ser motivo de constrangimento). Aliás, recentemente, recebi um vídeo no qual uma adolescente declarava em entrevista, com a convicção de quem estava fazendo a coisa certa: “Sou descendente de poloneses e não me orgulho disso”. Mais uma mente capturada. E não quero desviar do assunto. Se o lugar de fala deve se tornar algo sagrado, é preciso segui-lo à risca, não é mesmo? Ou pode haver exceções numa espécie de lugar de fala fora do lugar de fala, mas em nome do lugar de fala? Pode um presidente da República sem estudo formal – e que declarou que não lê porque ler é chato –, tratar com seriedade o sistema de ensino do País? Pode uma deputada trans, na qualidade de presidente da Comissão dos Direitos das Mulheres, decidir sobre questões ligadas à gestação, à amamentação e à menopausa? Não defendo a destituição do presidente da República nem da deputada presidente da Comissão. Não creio que suas condições pessoais, por si só, os impeçam de olhar por crianças a serem alfabetizadas ou mulheres a serem assistidas por políticas públicas. Ao contrário, defendo o incondicional direito de todos se manifestarem sobre qualquer assunto. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da PM, advogado e escritor