(FreePik) Os meninos tinham lá seus 10 anos de idade e acompanhavam seus pais numa visita ao avô, em um dia ensolarado daquele fevereiro de Carnaval do ano de 1968. O grande barato da época era se fantasiar de Clovis, nome que é uma distorção da palavra inglesa clown, que quer dizer palhaço em português. Quem “sai” de clovis no Carnaval também é chamado de bate-bolas, pois uma bola acompanha a fantasia. Amarrada por um fio, de um lado, e uma vara de outra, batiam no chão com força, fazendo um barulho forte e pretensamente assustador, especialmente para as crianças menores de idade e as senhoras maiores de idade. As bolas eram feitas de bexiga de boi que, secas, após um período de exposição ao sol, eram enchidas de ar usando um canudo, como uma caneta sem carga. Pelo menos era assim naqueles idos da década de 1960. Hoje talvez tenham inventado uma modelo 3D feito pelo ChatGPT (ironia). Uns dizem que a tradição do clovis veio através de nossos colonizadores portugueses e das Folias de Reis; outros contam que escravos libertos, perseguidos pela polícia, vestiam a fantasia para brincar no Carnaval e usavam o bate-bolas para protestar e mostrar força e poder. O fato é que essa é uma fantasia tradicional do Carnaval de rua do subúrbio do Rio de Janeiro e foi declarada Patrimônio Cultural Carioca. Basicamente, o clovis é uma fantasia feita de um macacão de cetim colorido e a máscara de palhaço, vendida nas melhores casas do ramo, a melhor delas, a Casa Turuna, na Rua Senhor dos Passos, no Saara. Local de comércio popular, como a Rua 25 de Março em São Paulo. Voltando à fantasia: também tinha uma capa, toda de cetim emoldurada de algodão, decorada com espelhos, cartas de baralho e mais o que permitisse sua criação alimentando esse imaginário de palhaço assustador, depois copiado, fragorosamente, pelo Coringa do Batman, de Gotham City, um verdadeiro plágio, que merecia, e continua merecendo retaliações. Que liberdade sentiam esses meninos, do alto de sua puberdade, emitindo grunhidos e batendo a bola no chão para assustar as senhorinhas! Seus pais, rigorosos em sua educação, transformava em uma proeza ir atrás da boa vontade de algum funcionário do abatedouro perto de sua casa para, digamos, ceder uma bexiga de boi recém-abatido, ainda com restos de sangue; coisa meio nojenta, imagino. E fedida, o que envolvia um certo ar macabro e de feitiçaria. Nada mais excitante para a idade. O que esses meninos foram fazer na casa do avô em um domingo ensolarado de Carnaval de 1968, fantasiados de bate-bolas, se perdeu. Me encantei com a fantasia. *Marcio Aurelio Soares. Médico