[[legacy_image_257515]] Outro dia, neste espaço de A Tribuna, li mais uma entidade médica representativa falando, mal, do Mais Médicos. Novamente valendo-se de argumentos que demonstram desconhecimento ou deturpação da regra do Programa. Uma ou outra atitudes que já desqualificariam a crítica, não bastasse que tais críticas são dos mesmos que não apenas calaram-se diante das inverdades sobre vacinas para covid como, pior, calaram-se e estimularam (sob o pretexto da "autonomia" do médico) o uso de medicamentos ineficazes no tratamento da covid, práticas que tantas vidas podem ter levado. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Bem, apenas para esclarecer, no Mais Médicos desde sempre a prioridade foi aos médicos brasileiros. Entretanto, os colegas não aderiram. Abriu-se então aos estrangeiros. E foi insuficiente. Por fim, por meio da Organização Panamericana de Saúde, instituição ligada à OMS, firmou-se um contrato com o governo de Cuba (xiiiiii, Cuba?) para o envio de médicos. Não obstante o médico, se brasileiro ou estrangeiro, a regra do Programa era clara: atuação restrita à Atenção Básica, sob a supervisão de um tutor ligado às universidades brasileiras, e com horas dedicadas ao estudo. E foi um sucesso! Locais em que um médico nunca tinha sido visto antes tinham médicos. Os indicadores de saúde melhoraram. E a relação médico-paciente foi tão boa, diria ineditamente boa, que a saudade que ficou até hoje é muito sentida. Veja que até em grandes regiões metropolitanas, como a Baixada Santista, os médicos do Mais Médicos atuaram. Incluindo cubanos. Ou seja, é falsa a alegação do excesso de médicos. É falsa a alegação de que estrangeiros substituíram brasileiros, uma vez que as localidades, mesmo em cidades grandes, seguiam com vazios assistenciais. E é falsa a alegação de sistemática substituição de profissionais por outros oriundos do Mais Médicos, uma vez que o vínculo era restrito ao Programa. Dirão muitos que o que precisamos é de uma "carreira médica" a exemplo de outras profissões, como a magistratura. Concordo. Meta a ser construída. Mas, até lá, quem vai chegar aonde as pessoas morrem desassistidas? Por fim, é falsa a alegação de que os brasileiros recusaram-se porque "não têm condições mínimas de trabalho"...Oras, voltem aos bancos acadêmicos! A Atenção Básica faz-se com muito pouco. E esse pouco é muito! Aconselhamento e medidas não medicamentosas mudam o rumo de doenças e as retardam ou evitam por completo. Uma boa consulta permite inúmeros diagnósticos. O fomento à vacinação previne doenças. E, diante de casos mais complexos, certamente um médico fará mais - inclusive um encaminhamento de mais qualidade - do que o "nada" que hoje é a realidade de muitos locais. Não custa lembrar que a Atenção Básica resolve mais de 80% de todas as condições de saúde e organiza a Rede de Assistência. O preceito do não fazer mal é um pilar da profissão médica. Infelizmente é esquecido por trás de pautas odiosas e preconceituosas mal disfarçadas como "defesa de classe e da saúde". Ou pior, talvez seja esquecido pela raiva porque o Mais Médicos desnuda o quanto precisamos evoluir na nossa prática médica, na nossa relação médico-paciente. Sinto-me como cidadão e profissional médico envergonhado de tal postura e nada representado pelos supracitados. Falam por eles e por suas pautas. Tenho a convicção que eu, e muitos outros profissionais médicos e da saúde em geral, vemos com alegria a retomada do Mais Médicos. E que, no futuro, seja um Programa desnecessário, substituído por um SUS cada vez mais forte, acessível e presente, em cada canto onde exista uma vida humana a ser preservada.