<p class="PDq2pG_selectionAnchorContainer" data-end="443" data-start="143" dir="auto">Ser juiz de Direito sempre foi minha aspiração antes da Medicina. Uma profissão honrada, erudita e com a oportunidade de aplicar a lei com justiça. Trata-se de alguém que deve ser austero. Nos modos e na sua vida. Sem extravagâncias. Ter o suficiente para uma vida confortável e que caiba no salário.</p> <p data-end="1088" data-start="445" dir="auto">E se não couber? Aí é recorrer aos “papagaios” (nome antigamente popular para os empréstimos bancários) e ao cheque especial, honrando a cada mês as prestações e os juros. Mesmo que isso signifique ver todo o salário ir embora quando ele mal caiu na conta corrente. Ou, pior. De tempos em tempos vender um dos poucos bens. Ainda que os filhos não entendam porque o carro novo já se foi e no lugar chegou um carro usado. Bem usado muitas vezes. É ser austero a ponto de não ser conhecido por ninguém fora do trabalho ou da família. Ser avesso a aparições públicas e entrevistas pois a liturgia do cargo (expressão hoje em desuso) assim o exige.</p> <p data-end="1708" data-start="1090" dir="auto">É também ser bom pai, bom marido e ficar longe de qualquer confusão que a vida às vezes oferece. Até abrir mão de coisas corriqueiras e inocentes, como cestas de Natal, ainda que os filhos protestem. A César cabe ter uma esposa que seja e pareça honesta. E é ainda se desarmar da sisudez cotidiana quando está em casa, com a família, amigos e parentes. E aí virar um pai bondoso e que ensina pelo exemplo. Ser juiz é ser justo. Não deixar que ninguém seja explorado ou humilhado pelo arbítrio ou pela força. É acreditar que o Homem pode ser reabilitado se as oportunidades forem dadas. Ser juiz é, enfim, nobre demais.</p> <p data-end="2293" data-start="1710" dir="auto">Outro dia eu estava junto a um velho juiz aposentado. Ele assistia à TV com notícias do Supremo. Como sua memória e cognição estão indo embora, ao ver seu olhar perdido, eu ousei perguntar: “O que o senhor está pensando?” E ele respondeu: “Nada, estou assistindo…. não estou entendendo nada”. Não fui adiante nas perguntas. E não soube dizer se ele não entendia, estupefato, essa confusão do Supremo causada pelos juízes de hoje ou se não entendia por conta dos seus muitos anos de vida. Minha visão romântica e o meu conceito de juiz de Direito me fazem crer que é a primeira opção.</p> <p data-end="2600" data-start="2295" dir="auto">Fico me questionando se os juízes de antes dariam margem a tantos desencontros e ilações com institutos próprios, eventos pseudo-jurídicos, jantares, palestras, entrevistas e, pasmem, opiniões em redes sociais… Creio que não. Eles não mudariam seus hábitos, afeitos que eram a já citada liturgia do cargo.</p> <p data-end="2864" data-start="2602" dir="auto">Enfim, outros tempos. Nos atuais resta torcer para que os bons prevaleçam e as instituições se reencontrem. E antes que termine essa reflexão preciso dizer. O juiz que conheço e espelha esse ideal e o aqui descrito tem 92 anos. E eu me orgulho de chamar de… pai.</p> <p data-end="2935" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2866" dir="auto">*Evaldo Stanislau Affonso de Araújo. Médico e professor universitário</p>