(Reprodução/ Pixabay) “Manhã de frio. Se fosse menino escrevia Meu nome no vidro”. Paulo Franchetti Quando somos crianças, somos ingênuos e acreditamos em nós mesmos. Crescemos atingidos pelas atribulações diárias, pelas notícias de comportamentos hostis do homem contra o homem, inclusive entre membros da própria família. Na tevê, guerras intermináveis, bombas destruindo cidades, matando populações inteiras. Mergulhando fundo na questão, confesso: ainda acredito num mundo melhor. Tem gente que nasceu com um pé na santidade. São pessoas que buscam amar-se, antes de tudo. Ao usar a velha receita caseira, entrego-me à magia de ver o pão crescer, ultrapassando as beiradas da forma. Deixo a alma encontrar os antepassados, harmonizando o movimento das mãos. A ansiedade desaparece. Sem pressa. No compassivo ato de ser, na aceitação de si mesmo, no respeito aos próprios limites por quem somos, podemos florescer em nós. É preciso, no entanto, cultivar o jardim. A palavra é antiga, mas o coração se renova quando ela nos remete ao que apenas somos. Em nossa casa prevalecia a contenção. Palavras poucas... O amor expresso nos atos cotidianos compartilhados desde o café matinal. Os vizinhos chegavam para o chá da tarde e a conversa escorria ao som da máquina de costura, o brilho dos tecidos refletido nas vidraças... Mãos afetuosas e olhos serenos expressavam o afeto da mãe por tudo o que fazia. E bastava. Sua linguagem de amabilidade incondicional acontecia a qualquer hora... Só mais tarde os filhos perceberam a descoberta do amor próprio, aquele que nos leva a gostar primeiro de nós mesmos. Não é egoísta. Não é amor ensinado. Mamãe, quem sabe, só veio a experimentá-lo depois que os filhos tomaram rumo próprio. E especialmente quando ficou viúva, no abismo da solidão pela ausência do sempre e único amor, companheiro desde a juventude. Que falta faz o amor dedicado a nós mesmos! O autoconhecimento traz a descoberta do amor próprio caminhando lado a lado com o que somos. Não há um padrão de perfeição a ser seguido. E não esmorecemos com críticas a nossa personalidade, ao nosso corpo, à aparência e às maneiras de expressão. A maior lição que podemos aprender vem de Rupi Kaur: a mulher, desde o primeiro dia, sempre teve tudo o que precisa dentro de si mesma. Foi o mundo que a convenceu de que ela não tinha. Amplio aos homens e a todos os gêneros o pensamento dessa mulher e poeta indo-canadense, pois somos um todo, uno, sem preconceito de qualquer ordem. Todos nascemos tão bonitos. A grande tragédia é que nos convencem de que não somos. Precisamos nos preencher de amor, de aceitação e de confiança em nossas relações familiares e comunitárias. E também estar sempre de braços abertos para as mudanças em nossas vidas. “Mergulho na nascente do meu corpo e chego a outro mundo/ eu tenho tudo o que preciso aqui dentro /não há motivo para procurar em outro lugar – meu corpo, minha casa”. Cultive o amor próprio e orgulhe-se da pessoa incrível que você é. Seja você o grande amor da sua vida! *Regina Alonso. Escritora, membro da Academia Santista de Letras e da Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios