(FreePik) Um vídeo, para garantir bom engajamento nas redes sociais, tem em média um minuto. Já as cidades possuem inúmeros problemas, como buracos nas ruas, trânsito caótico, falta de vagas em creche e longas filas na saúde. Enquanto os cortes rápidos nas redes capturam momentos, slogans e frases de efeito, a realidade é muito mais complexa e exige uma análise profunda que não pode ser reduzida a um minuto de atenção superficial. O processo político-eleitoral não passa imune a isso. Os outrora interessantes debates, que eram pautados por discussões robustas sobre planos de governo e alternativas para a solução dos mais variados problemas, agora são regidos por frases espetaculosas e propostas desconexas da realidade. Essa mudança é evidente nas eleições municipais, onde a imagem e a capacidade de “lacrar” nas redes sociais parecem ter se tornado mais importantes do que o conhecimento técnico e a competência administrativa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Neste ponto, surge uma dúvida sincera: em qual momento o valor de um seguidor passou a ser maior que o de um voto? Porque, na dinâmica atual, os números de visualizações e de curtidas parecem mais relevantes que os critérios técnicos e científicos que embasam uma proposta. Ou a quantidade de likes, por si, é capaz de subsidiar qualquer maluquice? O paradoxo que enfrentamos é evidente: candidatos que investem em criar uma imagem digital impactante, muitas vezes com pouca substância, atraem a atenção do eleitorado, enquanto aqueles que se concentram em propostas sólidas acabam ofuscados pela superficialidade da mídia atual, gerando pouco interesse de boa parte da população. E essa ponderação comporta uma analogia: é melhor termos as nossas cidades geridas por um “pastel de vento” carismático do que por um técnico enfadonho? É essencial refletir sobre como chegamos a esse ponto. Antes, os debates entre grandes nomes da política, como Montoro, Covas e Maluf, eram marcados por uma troca de ideias profunda, em que, apesar das divergências duras, havia respeito pelas opiniões e posições dos adversários. Hoje, a ênfase está em provocações gratuitas, de baixo nível e em argumentos retóricos, muitas vezes sem ligação com a realidade dos problemas enfrentados pela população. Essa espetacularização do ódio e da polarização não só empobrece o debate público, mas também mina a capacidade dos eleitores de fazer escolhas mais profundas e com convicção. Os desafios enfrentados pelas grandes cidades brasileiras são complexos. Questões como a falta de vagas em creches e as deficiências na saúde pública exigem líderes que possuam um entendimento profundo das necessidades locais. Como esperar que alguém preocupado em “lacrar” nas redes possa ter a capacidade de resolver problemas tão enraizados? A responsabilidade de mudar esse cenário recai sobre candidatos e eleitores. É crucial que o eleitorado não se deixe seduzir por performances vazias e busque compreender as propostas reais de cada candidato. A democracia não pode se resumir a um espetáculo de likes, compartilhamentos e lacração. A pergunta que fica é: para onde estamos indo? Se continuarmos a priorizar a forma sobre o conteúdo, corremos o risco de transformar as eleições em um show, onde o que mais entretém, e não o mais preparado, é o vencedor. E as consequências disso serão sentidas por cada um de nós, porque no mundo real um mero dislike não apaga aqueles personagens do nosso dia a dia. No mundo real, a chance do dislike só acontece a cada quatro anos, e nesse intervalo somos obrigados a conviver com a realidade das nossas escolhas. Sem algoritmos e sem bloqueios. *Acacio Miranda da Silva Filho. Pós-doutorado em Democracia e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra (Portugal), em Direito Público pela Fundación Las Palmas (Espanha) e em Administração Pública e Governo pela FGV