(FreePik) Uma mudança silenciosa ocorre. Ela não aparece apenas nas novas torres, mas na adaptação do que já existe a uma vida que mudou mais rápido do que o concreto. Relatórios da ONU recomendam requalificar edifícios para reduzir consumo, resíduos e emissões. Em Bordeaux, 530 apartamentos do Grand Parc receberam varandas, jardins de inverno, elevadores e áreas ampliadas, sem retirar os moradores. A experiência mostrou que transformar pode ser mais humano e inteligente do que demolir. Edifícios antigos ganham acessibilidade; surgem espaços para entregas, trabalho remoto, bicicletas e convivência. Segundo a OMS, a população com 80 anos ou mais triplicará até 2050. Adaptar também será garantir autonomia, permanência no bairro e proximidade com os vínculos de uma vida. Adaptar deve ser a primeira hipótese. Em alguns casos, porém, a estrutura, o lote, a legislação ou os custos podem impedir uma solução segura e viável. Isso nos leva a Santos, onde 67,1% das moradias são apartamentos, segundo o Censo de 2022. Numa cidade tão verticalizada, o futuro depende menos de expandir fronteiras e mais de qualificar o que já foi construído. Preservar não pode significar paralisar, assim como modernizar não pode significar apagar. E se, excepcionalmente, duas torres próximas, sem recuperação segura ou viável, fossem tratadas como oportunidade de regeneração urbana? Reunir lotes, reorganizar direitos e destinar parte da valorização para financiar a transformação não é devaneio. São lógicas estudadas pela OCDE e pelo Banco Mundial, por meio de instrumentos como reajuste fundiário e captura da valorização. Em Santos, qualquer aplicação exigiria desenho jurídico próprio, participação dos moradores e interesse público. Seria possível assegurar a permanência dos moradores, ou seu retorno, e ao mesmo tempo criar maiores afastamentos, áreas livres, acessibilidade, melhor ventilação e mais qualidade urbana? Não é uma defesa da demolição. É uma defesa do pensamento. Qualquer solução exigiria laudos independentes, segurança jurídica, transparência e benefícios comprovados. O ganho privado só seria legítimo se protegesse quem já vive ali e devolvesse valor coletivo à cidade. O maior risco talvez não seja transformar demais, mas deixar a cidade envelhecer enquanto fingimos que nada precisa mudar. “Cidade inteligente não é a que ergue mais torres. É a que transforma o que já existe sem expulsar a memória nem impedir o futuro.” *Alessandro Lopes. Arquiteto, urbanista, pesquisador em Inovação, Sustentabilidade, Infraestrutura Urbana e BIM Consultor Regional ICT Multiplicidades