[[legacy_image_284897]] Há cerca de 20 anos, publiquei, aqui neste espaço, artigo que tinha o sugestivo título de A Casa Misteriosa. Intrigava-me, desde menino, aluno do Colégio Santista, o imponente e sempre fechado casarão situado na esquina das ruas Constituição e Sete de Setembro, bem próximo da escola, onde eu passava todos os dias. Impressionavam não só o tamanho da casa e seu amplo jardim como também como ela era bem cuidada. Eram já tempos de degradação daquela parte da Cidade e o velho casarão resistia. Fiz muitas perguntas a respeito dele e as respostas vieram. O prédio havia sido construído no início do século 20 pela Companhia Docas de Santos, com 21 cômodos e 1.200 m2 de área, para ser residência de funcionários da empresa, mas foi logo comprado pelo comerciante Francisco Bento de Carvalho e permaneceu em posse da família que sempre fez questão de mantê-lo em excelente estado. Logo após meu artigo ser publicado, o único herdeiro do imóvel, José Duarte Castelo Branco, decidiu vendê-lo. O antiquário Rafael Moraes comprou o casarão com a intenção de ali instalar o Instituto Cultural Edith Gonçalves Dias e um museu dedicado ao poeta Martins Fontes, mas o projeto não foi adiante. Foram tempos difíceis: o edifício foi praticamente abandonado, e começou lento, mas inexorável, processo de degradação. Ele chegou a ser invadido, com livros que ali estavam lançados à rua como lixo. Felizmente, houve importante mudança de rumo. O médico Mario Flávio Leme Paes e Alcântara adquiriu o imóvel e iniciou minucioso trabalho de recuperação, que levou quatro anos e restabeleceu o vigor e a beleza originais. Sua iniciativa merece elogios e reconhecimento: afinal, são raras ações como essa, e menos frequentes ainda a partir de pessoas físicas que, sem buscar vantagens financeiras ou investimentos em marketing, propõem-se a realizar obras de restauração do patrimônio histórico. Fica agora a pergunta: e o futuro do casarão? Mario Flávio, com toda razão, entende que o melhor uso seria com atividades voltadas à comunidade. A Prefeitura de Santos, que já teria sido procurada por ele, precisa interessar-se e desenvolver projeto a respeito. É necessário dar vida ao imóvel, garantindo, ao mesmo tempo, que ele se manterá preservado. Não basta tombar ou restaurar o patrimônio; é fundamental que ele tenha utilização para que não se degrade e ao mesmo tempo, sempre que possível, seja aberto à população como memória histórica, artística, cultural e arquitetônica. Mario Flávio provou que é possível sonhar e ousar. Sua atitude deveria servir de exemplo a outras pessoas e, principalmente, a empresas que hoje falam tanto em compromisso com o meio ambiente, ESG, responsabilidade social. Tenho certeza de que há inúmeros imóveis na Cidade e na região que poderiam ser salvos da destruição e cumprir importante função para a comunidade. Mas agora é importante assegurar o futuro do velho casarão da Constituição com a Sete de Setembro: ele está maravilhoso, recuperado em detalhes, e precisa de uso racional, sério e comprometido com suas vocações. A maior homenagem que se pode prestar a Mario Flávio é assegurar que o edifício permaneça para sempre como registro de sua coragem em provar que se pode fazer o impossível.