[[legacy_image_258961]] Já tinha ouvido falar do filme O Físico (Alemanha, 2013). Aviso que o texto a seguir é um spoiler que, em minha opinião, não tira o interesse em assisti-lo. Pelo contrário, escrever sobre ele me deu vontade de voltar a vê-lo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Baseado no livro O Físico: Epopeia de um Médico Medieval, de Noah Gordon, o filme, ambientado na Inglaterra, trata de um menino que assiste, impotente, à sua mãe morrer de “doença do lado” (apendicite aguda), e passa a seguir um curandeiro nômade, numa cruzada de conhecimento que o leva à Pérsia, na busca por ser discípulo do que era considerado o melhor médico de seu tempo: Avicena. Rob, o protagonista, consegue frequentar as aulas, tentando esconder sua origem cristã, em terras muçulmanas. Sua sede de entender o comportamento do corpo humano e as doenças que o assolam, sobretudo a que causou a morte de sua mãe, o coloca em risco, por tentar ultrapassar os limites religiosos. Mas desperta a atenção de Avicena e do governante local, cujas atitudes liberais eram reprovadas por clérigos fundamentalistas. A arte de Avicena e suas aulas também não agradavam esses religiosos, e a chegada e curiosidade de Rob passaram a gerar suspeitas de que um de seus princípios basilares estaria ameaçado: a inviolabilidade de cadáveres. Hoje, sabemos a importância da anatomia, mas eram outros tempos. E mesmo na atualidade, ainda há os que repudiam seus métodos. O governante tem sintomas que lembram a “doença do lado”, o que desperta a atenção de Rob, e a simpatia do doente por sua obstinação. Mas nem só desse mal sofria o governante: os religiosos queriam sua derrocada. Decididos a tirá-lo do poder, buscaram o apoio de um líder tribal, prometendo que preparariam o terreno para sua chegada, criando o caos na cidade. Assim fizeram. Enquanto isso, a doença do governante ia se agravando. Impedido de ir além do que lhe era ensinado, Rob teve a ajuda de um adepto do zoroastrismo, cuja crença negava o enterro ou a cremação, com o moribundo buscando um lugar oculto para morrer, deixando seu corpo à natureza. Ele disse a Rob onde estaria. Graças a essa doação – transgressão à moral religiosa dominante -, Rob teve acesso às vísceras do morto, mas foi descoberto. O governante, já em estado grave, permitiu que Rob fizesse nele a cirurgia necessária, que foi bem-sucedida. Porém, o exército do líder tribal já estava às portas da cidade, e o governante, sem tempo de se recuperar, partiu para a derrota certa, enquanto a escola de Avicena era destruída, e ele exortava Rob a fugir. Vitorioso, o líder tribal foi recebido com boas-vindas pelos religiosos. No entanto, em vez de retribuir-lhes com sorrisos e gratidão pelo acordo cumprido, lhes exibiu um olhar ameaçador. Só então, forçados à reverência e submissão, os clérigos entenderam que haviam feito escolha ainda pior. Enquanto isso, de volta à Inglaterra, o curandeiro nômade fica sabendo de um físico que retornara do Oriente e criara um hospital, onde eram atendidos ricos e pobres, sem distinção. Teve certeza de que era Rob. Esse filme, para mim, tem a mesma força poética e estética de O Nome da Rosa (Alemanha, Itália e França, 1986), baseado em livro homônimo de Umberto Eco; e de Perfume – A História de um Assassino (Alemanha, França e Espanha, 2006), baseado em obra literária de mesmo título, de Patrick Süskind. São três obras com mensagens poderosas e atemporais, que extrapolam suas ambientações e cenários. Estão entre os filmes que poderei ver várias vezes, sempre com atenção, prazer e renovada reflexão.